Champagne Supernovas: vale a leitura?

29/04/2021

Os anos 1990 trouxeram mudanças radicais para a moda, fortemente influenciados pelas ruas e por três novos nomes: Alexander McQueen, Kate Moss e Marc Jacobs. Com arcos muito parecidos, os três são o foco de Champagne Supernovas: Kate Moss, Marc Jacobs, Alexander McQueen e os rebeldes dos anos 1990 que reinventaram a moda (2015, Editora Rocco, 254 p.), escrito pela jornalista Maureen Callahan. Ao contrário de A Batalha de Versalhes, que também resenhei para o blog, o livro de Callahan me dividiu. Teve momentos em que fiquei com uma preguiça tremenda e, depois, grudada nas páginas por horas. Então, para ser fiel à leitura, te conto os pontos fortes e fracos do livro.

Um retrato dos anos 1990

Os anos 1990 na moda são marcados por muitas mudanças, estéticas, de padrões, lifestyle… São anos transgressores, com a cultura underground chegando ao mainstream, a substituição das supermodelos por garotas muito magras que não correspondiam aos padrões de beleza perfeitos e a glamourização da estética heroin chic – modelos muito magras, brancas, com olheiras, cabelos sujos, posando em espaços decadentes, que parecem estar drogadas. Todo esse movimento é abordado no livro desde seus primórdios, com uma Kate Moss longe de ser famosa e a fotógrafa Corinne Day, grande responsável pela estética das fotografias.

E se você não sabe muito sobre essa década, o livro vai te contar um pouco do que estava rolando na música, nas ruas, o que as revistas e a “alta-moda” estavam pensando e como os transgressores vão aparecendo e dominando a indústria, sem jamais deixarem de se sentir rejeitados por ela. Vai narrar os primeiros desfiles de McQueen e Marc, assim como os ensaios e tentativas de Kate e Corinne de emplacarem nas revistas, além das festas intermináveis, os namoros, a vida sexual, as amizades e rompimentos são todos tratados aqui, às vezes com um aroma de fofoca, mas que ajuda a contextualizar o que essas pessoas estavam vivendo e sentindo.

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É uma leitora ávida por esse período histórico ou acompanhou todas os escândalos e momentos marcantes ao vivaço pelas revistas e internet? Então vem ler o próximo tópico.

Nada de novo sob a passarela

Uma das críticas mais fortes ao livro em muitos portais internacionais é que ele fala de personagens icônicos e com vidas já muito conhecidas e dissecadas em outros livros e revistas sem trazer nada de novo, o que coloca em cheque sua necessidade de existir. Ainda que a abordagem de reunir os três personagens mostrando como possuem arcos absurdamente parecidos seja interessante – os três eram crianças traumatizadas, foram rejeitados por serem diferentes, tiveram um envolvimento com drogas e foram um tanto devastados por elas -, ela não se segura sozinha, principalmente para quem já domina o assunto.

Eu recentemente assisti o documentário McQueen (2018) e, só baseada nele, já sabia basicamente tudo que está no livro sobre o estilista.

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Críticas

Ainda que a jornalista passe mais tempo narrando as histórias, ela levanta críticas bem pertinentes, como o papel das grandes marcas em afundar esses estilistas emergentes para lucrar, sem se importar com eles. Depois de alcançarem os holofotes por serem questionadores e estarem atentos a novas estéticas, que dialogam diretamente com o público jovem, casas tradicionais como Givenchy, Gucci e Louis Vuitton contratam esses estilistas para renovarem suas marcas sem darem o suporte necessário, muitas vezes menosprezando o que os tornava únicos.

Tanto McQueen, que trabalhou para a Givenchy, como Marc Jacobs, para Louis Vuitton, tiveram que se mudar para a França, não falavam francês, receberam apartamentos nada glamourosos e precisavam criar um número exaustivo de coleções para alimentar uma indústria faminta e cada vez mais fast. Essas pontuações são muito importantes para entender a pressão que cada um dos dois estava vivendo e como as casas não davam a mínima se eles estivessem drogados sempre desde que respeitassem o calendário oficial. Esse tensionamento é um dos pontos que eu mais achei interessantes na obra e vai deixando a gente com um nó no estômago enquanto vê as marcas decolando e os estilistas entrando em um espiral cada vez mais destrutivo e solitário. Mas tem mais um ponto que se destacou em Champagne Supernovas: Corinne Day.

Corinne Day

Uma das responsáveis pela revelação de Kate Moss e por mudar a estética fotográfica da década, Corinne Day acaba ganhando um grande destaque durante a história, com sua trajetória bem menos estelar correndo em paralelo com Kate, sua musa. E além de contar um pouco sobre ela e seu estilo fotográfico – que eu nem sabia que era dela -, o livro traz um ponto importante: por que Corinne não teve tanto sucesso quanto seus pares? Suas fotos e seu estilo influenciam uma série de fotógrafos, como Mario Sorrenti, David Sims, Juergen Teller, e enquanto eles se tornam aclamados e figurinha repetida em grandes revistas, com ela não acontece a mesma coisa.

Existem muitos relatos sobre a dificuldade de se trabalhar com Corinne, sobre como ela era geniosa e temperamental e estava sempre drogada. Agora, tirando a parte de que as drogas eram, segundo o livro, “os acessórios do momento”, quantos homens com ego forte e que querem tudo do seu jeito a gente viu prosperar na moda? E em qualquer lugar? Enfim, gostei do livro ter falado mais sobre a fotógrafa e quero ler mais sobre ela no futuro.

Falta de fontes quentes

E vamos de mais um ponto negativo: a falta de pessoas que realmente eram importantes na história e eram mais do que espectadores nos momentos narrados. Na falta das fontes, Maureen busca jornalistas daquele período para contar as histórias ou recorre a reportagens para ter falas de McQueen, Marc e Kate. Em alguns momentos chega a ter escrito que aquela fala é de um amigo de alguém que estava no lugar (?). Isso acaba descreditando a história, deixando-a com um tom superficial, de disse-me-disse, que não combina com um livro que pretende contar a história de pessoas tão importantes.

Ainda assim, por ela ter feito uma grande pesquisa, as referências no final do livro podem ser interessantes para quem quer saber mais sobre alguns assuntos.

Resumindo…

Valeu a leitura? Para mim, que não sabia muito sobre a moda dos anos 1990, valeu. Ainda que com todas as ressalvas feitas durante o post, aprendi bastante sobre a vida de várias pessoas e consigo enxergar mais claramente o cenário desse período a partir da leitura. Aí vale analisar o que você já sabe pra ver se pode ser uma boa leitura introdutória ou vai só te dizer mais do mesmo.

Bom, é isso. Espero que o post tenha ajudado e se ler o livro me conta depois o que achou?

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