E se eu parasse de comprar? Uma leitura para repensar o consumo e a nossa relação com a moda

O ano era 2011. Os blogs de moda brasileiros estavam no auge e se você já estava pela internet nestes tempos, deve lembrar do Um Ano Sem Zara, o blog da publicitária Joana Moura – Jojô para os íntimos, o que não é o meu caso, mas gostaria kkk. Ao contrário dos clássicos looks do dia, ostentando uma série de marcas que a gente não tinha acesso ou comprinhas ilimitadas nas fast fashions mais próximas, Jojô trazia uma lufada de ar fresco pra nossa blogosfera ao ficar um ano sem comprar e usar o blog para documentar todas as montações que surgiriam no processo de redescobrir o próprio armário. A motivação para isso? Ela estava completamente sem grana, com os cartões estourados e um rombo no cheque especial.

De um desafio pessoal o blog se tornou um destino diário para milhares de pessoas, que adoravam ler os textos divertidos e buscavam inspiração para comprar menos e aproveitar mais o que já possuíam. Revisitar essa história, trazendo bastidores antes não contados, Jojo estreia no mundo editorial com E se eu parasse de comprar? O ano em que eu fiquei fora da moda (HarperCollins, 2021, R$ 39,90). Quer saber se vale a pena a leitura? Pois eu te conto tudo agora!

O delicioso reencontro com uma velha amiga

Eu lembro muito do quanto me identifiquei com o UASZ. Era uma escrita divertida, sincera, vida real. Os looks eram criativos e existia um orgulho inédito de repetir roupa, criando novas combinações. Lembro de acompanhar quase que diariamente e, se não dava tempo, guardava a semana inteira para ler no sábado, com um bom chazinho. Uma das coisas que mais me surpreendia era a criatividade da Jojo, seja nas semanas temáticas ou nas transformações de funções de peças básicas, tipo vestido que virava blusa. A cada novo post, tentava também encarar o meu pequeno armário com outros olhos e documentar o processo aqui no Girls.

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Apesar de saber as motivações nada glamourosas do projeto, esse espaço era leve e divertido pra mim. Então não preciso nem dizer que estava ansiosa pra reencontrar essa amiga do passado e “fofocar sobre os velhos tempos”. Acontece que eu cresci e a Jojo também. E é isso que vamos ver no livro. A nossa conversa, antes em posts, hoje em páginas, evoluiu pra uma versão madura e honesta sobre os bastidores, as origens e as dificuldades dos 366 dias sem comprar.

Acabei o livro com um quentinho no coração, causado pela nostalgia típica de quem volta no tempo, mas pode ficar tranquila: ele vai muito além disso, trazendo boas reflexões sobre como as séries, filmes, personagens icônicas, revistas e todo esse universo da moda – um clubinho seleto que detém os dos e don’ts, além de closets invejáveis, abarrotados de tudo que é novo – nos levou pela mão para um consumo desenfreado.

A partir de suas próprias histórias, Jojo observa e demonstra como comprar se encaixa em cada pedacinho da nossa vida e até mesmo a incrível habilidade das roupas de nos fazer sentir bonitas, potentes e poderosas pode se tornar uma cilada quando esse amontoado de tecidos, formas, cores e modelagens parecem o único caminho para ser a melhor versão de nós mesmas. Como ela mesma escreve: “quanto vale a sensação de ser a mulher que você nasceu pra ser?”

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Esse é o momento em que você poderia me dizer que há tempos as revistas não ditam mais o que a gente vai vestir e que a moda está mais nichada e democrátoca. E sim, felizmente as coisas mudaram bastante nos últimos dez anos, mas seguimos consumindo muito conteúdo e muita. Quantos looks podem passar em uma tela nos instantâneos vídeos de 15 segundos? E no próximo vídeo? Reaproveitamos as peças ou precisa ser tudo novo? As próprias coleções semanais em gigantes de fast fashion são mais uma prova de que estamos longe de ter invertido a lógica.

Um livro pra se identificar

Não precisa ser uma compradora compulsiva ou viciada em comprar para se identificar com E se eu parasse de comprar? O ano em que fiquei fora da moda. Assim como não precisava para ler o UASZ. Isso porque até as mais controladas de nós devem ter ao menos uma compra por impulso que ficou presa no armário por tempo demais. Ou então, pelo menos um episódio no qual estava se sentindo mal consigo mesma e passou a tarde no shopping experimentando roupas que não podia comprar. Ou, ainda, durante a pandemia, há quem tenha incontáveis carrinhos abarrotados em e-commerces por aí – eu inclusa.

Pois a proximidade com cada uma de nós, em seus capítulos com jeitinho de crônicas do cotidiano, é uma das coisas mais potentes do livro. É impossível não se identificar ou se enxergar em diversos momentos da vida da nossa protagonista, seja na infância, adolescência ou vida adulta. E, já que estamos todas no mesmo barco parcialmente furado, ver que existe uma saída de emergência é um alento e talvez um bom ponto de partida não só pra refletir, mas também pra partir pra ação em busca de uma relação mais leve com a moda.

Um trechinho pra eternizar na mente

Um livro fluído, gostoso de ler, que vai te fazer rir e também colocar a mãozinha na consciência. Apesar de tratar de um tema sério, E se eu parasse de comprar? é leve e traz impresso em cada página a essência de quem o escreve. Não é e nem pretende ser um dossiê sobre o consumo, com números e soluções prontas pra sair dessa cilada. É um relato real, repleto de nuances, de erros e acertos, bem do jeitinho que a vida é. Acho que depois de tanto escrever nem preciso te dizer que indico a leitura demais, né? Pois caso ainda precise, a minha sugestão é esperar o final de semana, deitar na rede ou cantinho do seu agrado, deixar aquela bebida preferida do lado e mergulhar na história do livro e, depois, na sua própria. Se fizer isso, me conta nos comentários ou lá no Instagram o que achou?

Ah! Se você quiser saber mais sobre o livro, fica a dica de conferir esse bate-papo com a Jojo, a jornalista Lilian Pacce, que assina o prefácio, e Malu Poletti, editora do livro.

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