Casa Gucci: tudo sobre o livro que inspirou o filme

24/11/2021
Bem foto de família, todos sorridentes fingindo que não se odeiam kkk

Se você gosta um pouquinho de moda, cinema ou Lady Gaga já deve estar por dentro das divulgações de Casa Gucci, filme dirigido por Ridley Scott que estreia amanhã (25 de novembro) e conta com um elencaço incluindo Adam Driver, Al Pacino, Salma Hayek e Jared Letto. De acordo com os trailers, o filme promete focar na relação entre Maurizio Gucci e Patrizia Reggiani, que começa repleta de glamour, festas e romance, mas acaba com Patrizia presa por contratar um assassino de aluguel para matar o ex-marido.

Eu vidrada lendo em todo e qualquer lugar

O filme é insirado no livro Casa Gucci: uma história de glamour, cobiça, loucura e morte, de Sara Gay Forden, e é sobre ele que nós vamos falar hoje, meio pra entrar no clima da estreia, meio para falar sobre tudo que talvez fique de lado na adaptação, já que o que não falta na família Gucci são polêmicas, intrigas e brigas das boas! Sério, são quase 500 páginas em uma fonte pequena de “menina, não acredito que fulano fez isso”, num livro perfeito para fofoqueiras fashionistas de plantão. Então pega a pipoca e vamos de fofoca boa.

A família Gucci

A árvore genealógica de quem tá envolvido nas brigas no livro

Ainda que o crime seja um dos pontos mais conhecidos e chamativos, o livro se aprofunda muito na família, seus personagens, relações e disputas, sempre ligadas à empresa. Em um resumo muuuito resumo, os homens Gucci possuem personalidades fortes e intensas, são grandes adeptos do tough love e valorizam o trabalho e a lealdade.

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Tudo começa com Guccio Gucci (o patriarca e fundador da marca). Ao contrário do mito muito difundido de que a família era uma nobre fornecedora de selas da corte medieval, Guccio vem de uma família à beira da falência dona de uma empresa de chapéus. Adolescente, ele abandona Florença aceitando trabalho em um cargueiro a caminho de Londres, onde começa a trabalhar no Hotel Savoy.

É a partir dessa experiência com os turistas que começa a observar as malas e acessórios de viagem, que eram uma forma de expressar o bom gosto, elegância e influência dos turistas. Com suas economias, volta para Florença, conhece sua esposa Aida e abre a primeira loja, que vendia bolsas, malas e acessórios.

Na foto de cima, Guccio na loja de Florença; Na de baixo, Vasco (à esquerda)
e Rodolfo (à direita) com um cliente na loja

Dos 6 filhos, Aldo e Rodolfo terão o destaque no livro. Um dos grandes responsáveis pela Gucci ter se transformado em uma marca cobiçada mundialmente é fruto do trabalho de Aldo, que travou calorosas discussões com seu pai conservador sobre expansão da empresa, montando lojas em outras cidades como Roma, Nova York e Paris. É Aldo quem cria o logotipo com os dois Gs entrelaçados.

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Com o sucesso crescente da marca, era preciso criar uma harmonia de estilos dos produtos e é Aldo quem faz isso, promovendo o “Conceito Gucci”, fortemente inspirado pelo mundo dos estábulos e cavalos, seja o verde e vermelho das correias ou o pesponto duplo usado na confecção de selas. É a partir daqui que surgem os mitos da família ser produtora de selas – história abraçada e difundida pela marca, que passou a exibir acessórios desse universo como decoração das lojas. Aldo vivia para a empresa, sempre em busca de novas marcas, licenciamentos e expasões.

Já seu irmão Rodolfo não queria fazer parte dos negócios da família e se tornou um famoso ator italiano sob o nome artístico de Maurizio D’Ancora. Com as mudanças drásticas causadas no cinema do pós-guerra, Rodolfo pede para trabalhar na empresa e faz um grande sucesso atendendo nas lojas até que, depois de um ano de teste, se torna gerente de Milão. Com gosto refinado, criou algumas das bolsas e acessórios mais caros da marca, com detalhes como os fechos de ouro 18 quilates. Também foi o criador da echarpe floral, que é um grande sucesso da grife. Ao contrário da personalidade estrondosa de Aldo, Rodolfo é mais contido e melancólico, já que sua esposa morre muito cedo vítima de um câncer.

E já que estamos falando dos filhos de Aldo, quero deixar uma menção à Grinalda, que não recebeu nenhuma participação na empresa pelo simples fato de ser mulher. Inclusive, o noivo dela emprestou dinheiro para Guccio pagar dívidas da empresa quando estavam prestes a fechar e mesmo assim o casal ficou de fora das divisões. Machismo puro que chama, né?

Por último, um resumão dos protagonistas da terceira geração: Maurizio é o único filho de Rodolfo. Tímido, ele é protegido pelo pai de todas as maneiras e evitava tanto conflitos que preferia pedir dinheiro ou qualquer outra coisa que precisasse para o motorista do pai, ao invés de incarar as possíveis reações de Rodolfo. Ele se torna o diretor da Gucci, em uma das várias polêmicas que vamos falar em seguida! Já Paolo (segundo filho de Aldo) é criativo e não tem medo de confrontar os familiares e ser insistente pelo que quer. É Paolo quem cria a primeira coleção de itens prêt-à-porter (pronto à vestir) da Gucci.

Com todo os personagens devidamente apresentados, bora pras brigas? São tantas que eu precisei dividir em tópicos.

Paolo X Rodolfo

Com a Gucci virando um sucesso mundial e todos os familiares trabalhando juntos, era óbvio que os primeiros confrontos aconteceram por conta de dinheiro e poder. Com a morte de Vasco, Rodolfo e Aldo compraram a parte do irmão e ficaram cada um com 50% da empresa. Os dois mantinham uma divisão muito clara de suas funções: Aldo controlava a Gucci América e a rede de lojas, enquanto Rodolfo controlava a Guccio Gucci e a produção na Itália. Com as novas ações, Aldo dividiu 10% da sua parcela entre seus três filhos, enquanto Rodolfo estava de mal com Maurizio e manteve-se em posse de 50% da empresa.

A divisão 50-50 entre os dois herdeiros diretos era considerada injusta por Aldo e seus filhos, que sabiam o quanto a dedicação e conquistas de Aldo para a empresa tinham sido maiores do que as de Rodolfo. Assim, eles criam uma empresa de perfumes da Gucci com 20% das ações para Aldo, 20% para Rodolfo e 20% para cada um dos três filhos de Aldo. Outro ponto de futura tensão é que após a morte de Vasco, Paolo assumiu a supervisão da fábrica e começou a ter diferenças criativas com seu tio Rodolfo. De Florença, escrevia cartas de reclamações diárias para o tio, que estava em Milão, falando sobre expansão, próximos passos e questionando sobre as finanças. “Como era possível uma empresa que lucrava tanto faturar tão pouco” era uma de suas pergunas principais.

As desavenças começam a ficar mais sérias, com repreendas de Rodolfo a Paolo em coletiva de imprensa e o famoso episódio no qual, durante uma briga, bolsas Gucci foram arremessadas pela janela da sala de reuniões em Florença. Um dos funcionários chamou a polícia achando se tratar de um assalto (!) Em 1978, Rodolfo escreveu uma carta demitindo o sobrinho da empresa italiana. Paolo, por sua vez, resolveu criar a sua própria marca, o que enfureceu a família inteira e deu início a uma nova guerra.

Paolo X Todos os Guccis

Com a informação de que Paolo vai criar sua própria marca, a PG Collection, os Gucci fazem uma reunião familiar e aprovam um orçamento de 8 milhões para impedir que Paolo consiga usar o nome Gucci em seus produtos. Rodolfo chega a escrever cartas para cada um dos fornecedores dizendo que se fizerem negócio com o sobrinho podem esquecer a marca.

Depois de muitas brigas – com Aldo jogando um cinzeiro de cristal no filho, que sai da sala aos gritos – eles fazem um acordo, pagando indenização e tornando Paolo o vice-presidente da Guccio Gucci SpA (junção da matriz Guccio Gucci e todas as afiliadas, incluindo a Gucci Parfum) e também diretor da Gucci Plus (empresa que trata de licenciar a marca). Tudo certo e fim do conflito? Jura! Três meses depois, Paolo tinha sido novamente demitido e seguia em batalha para ter acesso aos documentos da empresa, entrando até em briga física com os parentes em outra reunião.

Começa então o segundo round de processos de Paolo contra a Gucci, porém, é outra de suas atitudes vai mudar drasticamente o rumo dessa história: durante anos, Paolo foi silenciosamente coletando documentos financeiros e descobriu que milhões de dólares estavam sendo desviados para empresas offshore. Em 1982, Paolo preenche os documentos acusatórios na corte federal de NY, mostrando que claramente a Gucci estava mascarando seus lucros. No ano seguinte, a IRS (Receita Federal dos EUA) e Procuradoria Geral começam a vasculhar as contas pessoais, empresariais e movimentações financeiras de Aldo, que acaba tendo que pagar uma grande multa e quase vai parar na cadeia. Toda essa história, que é abordada pela mídia a cada novo capítulo, é o plano de fundo perfeito para o terceiro conflito, que vai trazer o insosso Maurizio pra arena.

Aldo X Maurizio

Além de Aldo estar sob investigação, 1983 também é o ano em que Rodolfo morre, deixando Maurizio como grande acionista, livre para tomar decisões pela primeira vez. O único problema é que ele não tinha nenhuma experiência para isso, embora estivesse cheio de planos. Com os problemas de Aldo com a IRS, Maurizio é convencido pelos advogados a assumir o controle do conselho de diretores, só que, para isso, precisa do apoio de um dos três filhos de Aldo, fazendo um acordo com Paolo. Na próxima reunião do conselho, a diretoria existente é dissolvida e Maurizio é nomeado o novo presidente da Gucci América, com Aldo ficando como vice-presidente.

E a partir daqui é xeque-mate de 5 em 5 minutos. Nas palavras da autora do livro “Durante os anos 1980, a Gucci tornou-se mais conhecida por suas guerras de família do que por seus produtos. As reviravoltas das brigas de família enchiam as páginas das colunas de fofocas assim como a imprensa tinha o dia preenchido escrevendo as histórias”. Inclusive, existiam inúmeras referências e brincadeiras da imprensa comparando a família com a série Dynasty – um grande sucesso da década que tratava justamente das desavenças entre uma família de milionários.

Depois de ser destituído da presidência, Aldo revida entregando um dossiê indicando que Maurizio havia forjado as assinaturas do pai nos certificados de suas ações. Em setembro de 1985, as ações de Maurizio são bloqueadas. Ao descobrirem isso, Maurizio e seus advogados tiram todas as coisas de Aldo do escritório e o proíbem de entrar no prédio em que trabalhou por 32 anos, emitindo uma nota de imprensa de que ele não tinha mais um cargo na empresa. Enquanto isso, Paolo e Maurizio também desfazem sua parceria.

Como não temos imagens de Maurizio realizando seu isolamento social obrigatório na Suíça, aqui fica uma foto do filme mesmo

Aldo é sentenciado a 5 anos de condicional, incluindo um ano de serviço comunitário por sonegação de impostos, em uma prisão popularmente conhecida como “clube de campo”, tamanho conforto, privilégios e estrutura oferecida aos detentos, que contavam com quadras para tênis, vôlei e uma série de esportes e até telefone. Maurizio, por sua vez, também tinha contas a pagar com a justiça italiana e foge de moto para a Suíça após descobrir que os oficiais das finanças estão esperando-o em seu escritório com um mandato de prisão. Vai dizer que não é muito trama de novela?

Maurizio fica exilado por 1 ano, com uma substituta na diretoria indicada pela justiça. Durante esse tempo, começa a planejar o próximo capítulo da empresa, sem os primos ou tio. Ele entra em contato com investidores para comprar as ações dos familiares. A Investcorp, em conjunto com a Morgan Stanley, aceita e compra as ações de Paolo, Roberto, Giorgio e, por último, Aldo, que se vê encurralado. É o início de um novo capítulo, no qual, pela primeira vez, a Gucci deixa de ser um negócio familiar para ter uma empresa de investimentos detendo cerca de 50% das ações. Em outras palavras, Maurizio vence.

A partir daqui, começam outras mil reviravoltas, mas aí o papo é bem empresarial, então, se você se interessa pelo assunto, indico ler o livro pra entender melhor.

O romance

Pra entender a história de amor entre Maurizio e Patrizia é preciso voltar beeeem no tempo, mais especificamente para 1970, antes de todas essas polêmicas acontecerem e Maurizio tomar o poder de seus primos e tio. Os dois se conhecem em uma festa e Maurizio fica completamente hipnotizado por Patrizia e seu vestido vermelho. No segundo encontro, ele já tinha a pedido em casamento. Porém, havia um problema: Rodolfo, não gostou de Patrizia desde o começo, achava-a uma alpinista social que só estava interessada no dinheiro da família.

A relação de Rodolfo e Maurizio era de completa superproteção e dominação do pai, enquanto o filho aceitava todas as imposições de cabeça baixa. É por conta de Patrizia que essa dinâmica muda, com Maurizio saindo do apartamento da família brigado com o pai e sem dinheiro da família. Ele vai morar com a família de Patrizia e começa a trabalhar para o pai dela. Os dois se casaram em um super evento com 500 convidados e sem nenhum familiar de Maurizio presente – Rodolfo inclusive foi à Catedral de Milão pedir ao cardeal para que impedisse o casamento.

Pai e filho seguem sem se falar até que, por insistência de Aldo, Rodolfo aceita conversar com o filho e envia-o para NY para trabalhar com o tio Aldo. Os dois ganham uma penthouse em Manhattan e tudo parece bem. Têm duas filhas, Alessandra e Allegra, e Patrizia atuava como conselheira de Maurizio, que estava sempre em busca de um guia para seguir, e representava o tímido marido nos círculos sociais.

O desandar

A medida em que Maurizio começou a assumir o controle da Gucci, passou a deixar os conselhos de Patrizia de lado, passando cada vez menos tempo com a família. Em 1985, ele faz uma pequena mala e diz estar indo para Florença por alguns dias. Na tarde seguinte, um amigo de Maurizio vai ao apartamento e informa que Maurizio não irá voltar mais. Patrizia fica possessa – e não vou negar que estou com ela nessa: como o marido era covarde a ponto de acabar o casamento a partir de um intermediário?

Nos primeiros anos após a separação, eles mantinham as aparências em relação ao casamento. Segundo o livro, Patrizia “se arrumava para mostrar-se bonita sempre que ele ia ver as filhas, mas depois que ele saía, trancava a porta de seu quarto, jogava-se na cama e chorava por horas. Ela registrava cada contato que tinha com ele em diários da Cartier” – diários estes que depois se tornariam provas do crime.

No natal de 1985, os dois tiveram uma grande briga, que culminou em Maurizio agarrando-a pelo pescoço e levantando-a até sair do chão. No dia seguinte, ele fez as malas e anunciou para as filhas que estava morando em outra casa e que não amava mais a mãe delas. E aí começa mais uma guerra entre os dois, com Patrizia usando as crianças contra ele e Maurizio usando suas propriedades contra ela.

Em 1990, Maurizio conhece Paola e pouco tempo depois os dois começam a namorar. A medida que o relacionamento avançava, ele cortava certas amarras com Patrizia, por exemplo, proibindo que ela usasse as casas de Saint Moritz. Segundo o livro, ao saber da proibição ela ameaçou colocar fogo em tudo e chegou a pedir para um funcionário preparar dois tanques de gasolina e deixar do lado da casa. Em 1991, Maurizio finalmente pede o divórcio, que só é finalizado em 1994. Maurizio exige que ela pare de usar o nome Gucci e está preparando os documentos para pedir a custódia das filhas.

O crime

“Nem que seja a última coisa que eu faça, mas quero vê-lo morto” é o que Patrizia dizia repetidas vezes à governanta, que foi procurar Maurizio para contar. Ela começa a ter enxaquecas fortíssimas e descobre um tumor na parte frontal esquerda do cérebro. Maurizio se nega a ficar com as filhas enquanto ela está se tratando e também não aparece no dia da arriscada cirurgia. Após estar curada, Patrizia volta a seus planos de vingança e o livro traz vários trechos das anotações e transcrições de fitas enviadas por ela a Maurizio.

Em março de 1995, Maurizio é assassinado a tiros na entrada do prédio de seu escritório. Não se encontram suspeitos por dois anos, até que um oficial recebe uma chamada anônima de alguém que sabe a história completa. A investigação volta e Patrizia é presa em 1997 por encomendar o assassinato de Maurizio Gucci por 375 mil dólares. Sua amiga de longa data Pina Auriemma foi a intermediária, conduzindo o dinheiro e as informações entre Patrizia e os matadores. O julgamento se tornou, na Itália, o equivalente ao de O.J. Simpson nos EUA, com os canais de TV cobrindo cada novo dia e a população em êxtase a acompanhar. Ela e seus 4 cúmplices foram considerados culpados e Patrizia foi sentenciada a 29 anos de prisão.

Na semana em que Patrizia recebeu a sentença, as lojas Gucci em todo o mundo expuseram em suas vitrines um par de algemas em prata de lei – embora um porta-voz tenha assegurado aos clientes que a exibição desse objeto era apenas uma “coincidência”.

A história da marca

Ainda que livro tenha MUITA coisa acontecendo e várias reviravoltas dignas de novelão das 9, a história da marca, desde a criação dos produtos mais icônicos, sua época de glamour, ostracismo e ressurgimento com as criações de Tom Ford, também é abordada. E isso é um ponto bem especial para quem gosta ou quer saber mais da marca, já que a autora tem boas fontes e não economiza em dividir os detalhes com a gente. Eu sei que o buzz em torno da obra não é exatamente sobre isso, mas o livro consegue ser um conjunto desse mundão de referências, pessoas, histórias e produtos do qual a marca é composta.

E é isso! Ficou passada? Espero que cê tenha gostado do post e tenha ficado ainda mais animada para ver o filme. Se quiser bater papo sobre, mi caixinha de comentários es su casa.

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