Batalha de Versalhes: um livro essencial pra aprender sobre história da moda

Montagem com duas imagens, dispostas lado a lado, em um fundo branco. Na primeira foto, à esquerda, um livro com capa azul escuro e pink traz o título, em letras maiúsculas "A Batalha de Versalhes". Em rosa, está o subtítulo, também em letras maiúsculas, rosa, "a noite que mudou a história da moda" e o nome da escritora "Robin Givhan", em letras maiúsculas brancas. Na segunda foto, à direita, com uma borda amarela, está uma foto preta e branca com várias modelos nas passarela, uma delas, negra, está em primeiro plano, mas desfocada. Todas vestem vestidos esvoaçantes. Logo abaixo das fotos, está escrito o seguinte texto, em letras maiúsculas amarelas "DICA DE LEITURA PODEROSÍSSIMA".

Um momento histórico revolucionário, fundamental para a moda como a compreendemos hoje, acontecia na noite de 28 de novembro de 1973, em Paris. Mas pensa em revolucionário a nível de sacudir as tradicionais estruturas da alta-costura francesa – tida como referência absoluta por séculos. Para iluminar este evento tão importante com um relato preciso e questionador, a jornalista e crítica de moda Robin Givhan escreveuA Batalha de Versalhes: a noite que mudou a história da moda (2017, Zahar, 300 p).

Na leitura, você vai encontrar uma verdadeira aula de história da moda, com contexto social, descrições impecáveis e reflexões poderosas sobre representatividade e papel da moda – dois temas que têm tudo a ver com o momento que estamos vivendo agora. Tudo isso, através de um texto leve e direto, que praticamente pega pela mão e nos leva a revisitar o período de pertinho. Ficou interessada? Pois eu conto tudo sobre essa leitura essencial para quem gosta de moda agora!

O que foi a Batalha de Versalhes?

Montagem vertical com duas fotos intercaladas e fundo branco. Cada uma das imagens tem uma borda amarela para decorar. Na primeira foto, alinhada na parte superior esquerda da montagem, uma modelo negra em uma foto preto e branca, com cabelos presos em um coque e um vestido frente única com detalhes geométricos posa.. Na segunda foto, alinhada na lateral inferior direita, uma modelo loura com um vestido esvoaçante azul pastel e uma asiática desfila com um vestido longo de chiffon lilás, com uma espécie de capa leve também em chiffon.

Com o objetivo de angariar fundos para a restauração do famoso palácio do rei Luís XIV, o evento foi um fashion show no qual cinco ícones da alta-costura francesa (Yves Saint Laurent, Hubert de Givenchy, Pierre Cardin, Emanuel Ungaro e Marc Bohan, representando a Dior) e cinco designers exitosos dos Estados Unidos (Oscar de La Renta, Bill Blass, Anne Klein, Halston e Stephen Burrows) desfilaram suas peças para uma plateia recheada com o crème de la crème da sociedade. Para você ter uma ideia, entre os convidados estavam nada menos do que a princesa Grace de Mônaco, Paloma Picasso e Andy Warhol.

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Enquanto o evento era o holofote perfeito para a recente moda autoral criada nos Estados Unidos, já que, até o final da década de 1960, o mercado fazia apenas cópias literais do que era criado em Paris, os franceses se preocuparam em reverenciar a história com suas marcas registradas: o glamour, a exclusividade e a pompa. Esse embate entre a tradição e o contemporâneo foi um dos pontos mais importantes do evento, que trouxe grandes mudanças para o campo da moda. Entre elas estão uma forma mais dinâmica de apresentar os desfiles, uma transformação no papel das modelos, que passam a expressar suas personalidades ao invés de serem ‘meros cabides’ e, também, uma nova forma de ver e pensar a moda.

Card quadrado com borda amarela e fundo branco, no qual está centralizado o seguinte texto, uma citação do livro A Batalha de Versalhes, em laranja: "Depois de Versalhes, a moda não era mais uma ferramenta engenhosa para organizar, domar e compreender a sociedade. Ela se tornou entretenimento descarado - suspeito para muitos, mas irresistível. E deixou de ser discreta e precisa. Não havia mais uma única língua franca da moda. Ela se dividira em inúmeros dialetos".

Aula de história com muito contexto

Montagem vertical com fundo branco e duas fotos dispostas intercaladas. Ao lado de cada foto, está uma borda assimétrica amarela. Na foto 1, alinhada na lateral superior esquerda, em preto e branco uma série de modelos seguram guarda-chuvas, no que parece ser uma pose de dança, com a mão direita para cima. Na segunda foto, também em preto e branco, alinhada na lateral direita inferior, quatro modelos desfilam sorrindo com vestidos de gala longos e cabelos presos.
Algumas das modelos representantes dos Estados Unidos. O show norte-americano também contou com abertura e encerramento de Liza Minelli

Estudar/compreender a moda de um determinado período – seja o passado ou o incerto presente – exige muito contexto cultural. Entre as inúmeras perguntas a serem respondidas estão quem são essas pessoas, quais papéis desempenham, onde estão na hierarquia, quais são suas lutas, anseios, desejos, como e o que expressam e por aí vai. Pois Robin explica tudo, montando uma colcha de retalhos tão unida que faz a gente quase que ser transportado para os anos 1970 – ai, ai, bem que eu queria.

Dos motivos pelos quais a França é considerada o berço da moda à trajetória dos designers; da história de cada modelo negra que desfilou em Versalhes à criação da indústria estadunidense de moda – que não tinha nada de glamourosa como a de hoje sugere, o livro narra e explica os acontecimentos de forma linear, com detalhes que devem ter exigido uma pesquisa ABSURDA. Para você ter uma ideia, até chegar na noite da “batalha”, você vai passar por 10 capítulos – aproximadamente 169 páginas. Com a minha breve experiência como pesquisadora, fazendo o TCC rs, eu já fico perplexa só de imaginar.

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Texto inteligente e sagaz

Montagem vertical com três fotos intercaladas e fundo branco. Cada uma das imagens tem uma borda amarela para decorar. Na primeira foto, alinhada na parte superior esquerda da montagem, um livro aberto em cima de um sofá está com muitos trechos destacados em tom laranja pastel. Uma calça de pijama, com pernas cruzadas e uma mão branca com unhas rosas e um anel de pérola no dedo anelar. Na segunda foto, alinhada ao meio e à direita, uma mesa de madeira marrom escura tem uma xícara de café cremoso, um prato com panqueca de banana e meia goiaba cortada e o livro "A batalha de Versalhes". Na terceira foto, uma mesa de madeira marrom, com um prato azul de sobremesa com duas fatias de bolo, uma xícara de café cremoso e um livro aberto.
Café da manhã com minha paixãozinha e pela foto de cima dá pra ver que eu gastei uma quantia razoável de marca texto

Embora o conteúdo seja incrível por si só, o texto de Robin é um dos grandes destaques de “A Batalha de Versalhes” e não poderia ficar de fora da minha resenha. Com uma riqueza de detalhes, ela consegue apresentar uma pintura vívida do que aconteceu – o que é bem importante, já que não existem muitos registros fotográficos do evento. As descrições da era disco, dos protestos, do que as pessoas vestiam, sentiam e queriam é primorosa. No capítulo dedicado à batalha propriamente dita, nós conseguimos, através de suas palavras, ver o evento acontecendo e sentir a aura de excitação crescente que o show provocou.

Dos designers às modelos, a autora apresenta uma infinidade de personagens sem ser superficial ou confundir o leitor. Traz curiosidades, detalhes e trechos de entrevistas de forma fluída e perspicaz, em um texto inteligente e fácil de assimilar. Fiquei tão fissurada que reorganizei minha agenda pra conseguir ler todos os dias de manhã antes de fazer qualquer outra coisa. E admito que me senti bem mais inspirada. Desculpa ser tiete demais, mas, assim que você ler, vai perceber que é inevitável .

Histórico sim, atual também

Montagem vertical com fundo branco e duas fotos sobrepostas, uma alinhada na parte superior e outra na inferior. Cada uma das imagens possui uma borda amarela para decorar. Na primeira foto, alinhada na parte superior esquerda, está a modelo Billie Blair, negra e com cabelo raspado, em um fundo preto com um círculo branco. Billie veste um terno branco com regata de cetim preta por baixo e colar prateado. Na segunda foto, alinhada à direita inferior, quatro pessoas sorriem em um painel branco. Da esquerda para a direita, são elas: Alva Chen, modelo, com um vestido rosa chiclete com decote v e detalhes pretos, cabelos presos e mão na cintura; Stephen Burrows, com um terno preto, óculos escuros e um troféu prateado; Pat Cleveland, modelo, com cabelo chanel solto e um vestido com alças finíssimas e decote v azul claro; Bethann Gardison, também modelo, com um vestido  de estampa abstrata em tons de amarelo, preto e vermelho e cabelos raspados grisalhos.
Foto 1: Billie Blair, uma das maiores estrelas do desfile. Foto 2: o designer Stephen Burrows e algumas de suas modelos e amigas (da esquerda para a direita: Alva Chen, Pat Cleveland e Bethann Hardison

Vamos fazer um teste rapidinho. Se eu listar as seguintes pautas: Libertação feminina; manifestações contra o racismo e o abuso policial para com pessoas negras periféricas; urgência em ter uma maior representatividade negra nas revistas, jornais, tv, publicidade, você diria que eu estou falando dos anos 1970 ou de 2020? A resposta é: dos dois.

Ao contextualizar as manifestações de Detroit, em 1967, e a forma com que a mídia e a moda foram consideradas espaços potentes e fundamentais para diminuir a desigualdade/segregação, Robin não só apresenta o quadro mais “plural” pintado em Versalhes – 10 das 36 modelos estadunidenses eram negras – mas também tensiona o quanto isso era uma atitude realmente desejada ou um surfar na onda das manifestações populares – outra pergunta que temos nos feito com maior frequência nos últimos tempos.

Em Versalhes, a personalidade vanguardista e o gingado das modelos negras, que dançavam pela passarela e davam vida às roupas, foi o grande destaque, encantando da plateia aos designers franceses. Mas será que essas mesmas modelos, verdadeiras protagonistas deste momento histórico, tiveram o merecido espaço para prosperar na moda depois do triunfo? Tem que ler pra saber mais, mas você já deve conseguir imaginar a resposta: não tiveram. Entre as críticas diretas e cruas de Robin, estão temas centrais para todas as pessoas que trabalham/gostam/pesquisam a moda: apropriação cultural; embranquecimento dos símbolos e criações vindos das comunidades negras; a dificuldade que todos esses personagens reais apresentados no livro têm de alcançar o sucesso; como a moda é convenientemente transgressora, mas, na hora de realmente fazer a diferença, continua a mesma valsa entre as mesmas pessoas privilegiadas. Fica mais uma citação super pertinente – já prepara a marca texto porque tem muuuuita coisa pra destacar na obra.

Card quadrado com borda amarela e fundo branco, no qual está centralizado o seguinte texto, uma citação do livro A Batalha de Versalhes, em laranja: "Nos anos que se seguiram a Versalhes, as práticas mudaram em termos de raça, leis, língua e negócios. Mas e os corações? A resposta não é tão definitiva. A norma padrão de beleza sempre foi e continua sendo a pele branca. Não importa que o ofício da moda, cada vez mais comercial e global, tenha entre seus mercados de mais rápido crescimento regiões como a Ásia, a Índia e a América do Sul". Logo abaixo do texto, está o texto de crédito, em amarelo "A Batalha de Versalhes, p. 254"

Eu poderia seguir horas falando sobre como “A Batalha de Versalhes” é um livro maravilhoso e essencial nessa resenha, mas acho que consegui abordar alguns dos principais pontos. Gostou da dica? Clicando aqui você pode ver um documentário que encontrei no Youtube sobre a história, com entrevista de algumas modelos que estavam presentes em Versalhes. Infelizmente, o vídeo está em inglês e sem legenda, mas quem se garantir, vale o clique. E aqui fica um link pra acessar os textos da Robin no The Washington Post.

Ah! Quem ler, não esquece de me contar o que achou. E pra quem está querendo dicas de leitura que não tenham a ver com moda, indico esse post aqui, com 6 livros sobre mulheres fortes <3

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