Os melhores livros que li em 2020

28/12/2020

Montagem com fundo branco e duas fotos. A primeira, um livro está aberto em cima de um sofá cinza com marcações laranjas. Na segunda foto, à direita, um livro aberto está no colo de uma pessoa branca, vestindo um vestido branco com poá amarelo. Logo abaixo das fotos, está o texto "ALÔ, CLUBE DO LIVRO" em letras maiúsculas laranja.

Quer começar o próximo ano com leituras potentes? Aqui vai uma listinha das boas, pra suspirar tamanha beleza ou transbordar em lágrimas. Desde que acabei a faculdade, venho querendo retomar o hábito da leitura, há tempos surrupiado pelas burocracias da vida adulta. Eis que em 2020, estabeleci a meta de ler 12 livros – um por mês. Mal sabia eu que esse ano seria difícil, praticamente impossível em muitos momentos. E foram justamente os livros que me pegaram pela mão e levaram pra longe de tudo que estava passando aqui dentro. Nem sempre viajei com eles para lugares melhores ou mais divertidos, mas valeu demais a pena. E passei a meta com surpreendentes 19 leituras!!!

Embarcar em aventuras vividas em lugares que nem sempre existem por personagens que passam a ocupar um cantinho no nosso coração – seja por amor ou ódio – é a minha parte preferida de ler. E com os livros dessa lista pode ter certeza que cê vai se apaixonar um monte. Bora conferir?

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1. “O dia em que Selma sonhou com um ocapi”, Mariana Leky

Foto vertical com borda laranja. Em cima da mesa marrom de madeira está uma caneca preta com café, uma panqueca em um prato preto e um livro com capa amarela, uma cabeça de animal ilustrada e o título "O dia em que Selma sonhou com um Ocapi" em rosa.

Já vou começar com o meu preferido. O dia em que Selma sonhou com um ocapi é uma das coisas mais lindas que li na vida inteira. Mariana Leky cria um universo de fantasia tão especial, que em alguns momentos parece que a gente está sonhando. É um livro de preencher o coração com cenas bonitas, algumas tristes outras felizes. Fiquei completamente arrebatada pela forma com que ela cria imagens e anima objetos do cotidiano de uma forma real e delicada, transformando o banal em extraordinário. Pega essa citação como exemplo:

Imagem vertical com fundo branco e uma borda inferior em tons de amarelo. Está escrito o seguinte trecho, em laranja, centralizado: "Quando alguém quer ligar sem falta para o outro alguém e essa ligação lhe traz uma angústia de igual intensidade, telefones parecem brotar em todos os cantos. Havia o telefone novinho em folha na sala de Selma e no andar de cima, o telefone fino e elegante de mamãe. Havia o telefone do quarto dos fundos do oculista, o telefone revestido de veludo verde sobre o pequeno aparador de Elsbeth. Havia o telefone do meu apartamento na capital e aquele ao lado da livraria do senhor Röder. No meu caminho até a livraria, havia uma cabine telefônica amarela. "Estamos prontos", diziam todos esses telefones, "o problema não está conosco''.
Até a espera por uma ligação fica linda, fala sério

O livro se passa em Westerwald, uma cidadezinha no interior da Alemanha, e é narrado pela neta de Selma, Luise, uma criança com olhar mágico e curioso sobre o pequeno universo que a cerca. A história começa com Selma sonhando com um ocapi, o que significa que alguém da cidade irá morrer nas próximas 24 horas. “Selma tinha sonhado por três vezes com um ocapi durante sua vida, e em todas as vezes em que isso aconteceu alguém morreu, por isso estávamos convencidos da inegável associação entre sonhar com um ocapi e a morte. É assim que funciona nossa razão. Ela consegue, em pouquíssimo tempo, fazer com que coisas das mais disparatadas criem um vínculo muito forte” (p. 1). É a partir deste acontecimento que somos apresentadas a personagens únicos e envolventes, que vão experienciar e refletir sobre amor, perda, parceria e o tão misterioso ciclo da vida, acompanhando três etapas da história de Luise. 

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Se fosse pra resumir, O dia em que Selma sonhou com um ocapi é aquele livro pra suspirar e gastar caneta marcando trechos infinitos. Pra deixar a imaginação fluir e perceber a mágica que nos cerca todos os dias. Já fiquei até com vontade de ler de novo.

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2. “Se deus me chamar não vou”, Mariana Salomão Carrara

Foto vertical com borda amarela. Na foto, uma mão segura um tablet com a capa rosa e o texto se deus me chamar não vou"

Esse foi um sucesso em 2020, assim, talvez você já tenha ouvido falar. Se deus me chamar não vou é uma história linda, cativante,  repleta de tapas na cara e de conexão com a nossa criança interior. Se eu posso dar um conselho, embora o livro seja curtinho, prefira ler aos poucos, com um caderninho do lado pra refletir sobre a sua própria vida e como as questões te atravessam. Eu fiz um clube do livro com meu namorado e rendeu muuuuuito assunto, além de uma conexão muito especial entre a gente.

Do que se trata a história? Do alto de seus 11 anos, Maria Carmem resolve escrever um livro para contar como está sendo ano. E aqui já deixo meu parabéns para a autora, que consegue escrever como criança absurdamente bem. De capítulo em capítulo, a gente ri com seu olhar inocente sobre o mundo, chora porque ela é tão pequena para se sentir tão sozinha e lidar com tanto bullying, quer abraçá-la e ligar pros pais dela contando o que está acontecendo. Quer antecipar uns capítulos – nesse caso, da vida – e dizer que vai ficar tudo bem. Mas não pode. E à sua maneira, bem como acontece, ela vai crescendo e aprendendo, enquanto dá vida a trechos que deixam a gente sem fôlego, tipo esse aqui de baixo.

Arte vertical com fundo branco e borda inferior listrada de amarelo e laranja. Em laranja e centralizado está o seguinte texto, uma citação do livro "se deus me chamar não vou": Talvez se eu caísse do segundo andar ali no meio do pátio muitas pessoas ficassem preocupadas, elas se preocuparam com a pomba, ninguém encosta direito numa pomba. Também não encostam direito em mim, só pra empurrar e agora pra dar tapa. Talvez se estivesse com os braços presos numa enorme sacola que me arrastasse com o vento, daí quem sabe eles iam correr pra tentar me soltar, só pra não serem obrigados a ver a minha cabeça quicando no chão, minhas pernas trombando nas paredes, a minha cara esfolando no piso conforme a ventania, mas iam tomar cuidado pra não tocar as minhas penas, meu bico, meu olhinho amarelo arregalado na cara.

Eu não estava preparada para tudo que esse livro ia tocar. E mesmo me esforçando pra escrever o melhor possível, sinto que não consigo explicar o quanto essa leitura é essencial, bonita, crua. Indico pra todo mundo que conheço, mesmo que a pessoa não tenha pedido indicação kkk

Arte vertical com fundo branco e borda inferior listrada de amarelo e laranja. Em laranja e centralizado está o seguinte texto, uma citação do livro "se deus me chamar não vou": Também fiquei querendo que livros fossem igual sanfona. Que tudo que eu escrevesse ficasse sanfonando na calçada pras pessoas ouvirem, em vez de lerem, já que ninguém sai lendo muito por aí. Daí as páginas abriam e fechavam no meu braço e as palavras iam saindo e se escrevesse muito muito muito bem igual o Leonardo toca, as pessoas acabariam dançando.
Tive que colocar uma segunda citação, porque esse trecho é de uma beleza singular

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3. “Herdeiras do Mar”, Mary Lynn Bracht

Foto vertical com fundo laranja. Na foto, está uma mesa de madeira, com o livro herdeiras do mar em cima da mesa.

Uma obra pra segurar o fôlego e soltar as lágrimas. Em seu livro de estreia, Mary Lynn Brancht faz um trabalho primoroso de resgate, lançando um holofote sobre uma série de assuntos que eu não fazia ideia, como, por exemplo, que entre 50 mil e 200 mil mulheres foram sequestradas, enganadas ou vendidas como mulheres de consolo para o uso dos militares durante a colonização da Coreia pelo Japão. Em outras palavras, foram escravizadas sexualmente, agredidas e tratadas como corpos descartáveis. Já arrepiou aí? Aqui já.

Herdeiras do Mar também apresenta as haenyeo, pescadoras-mergulhadoras da ilha sul-coreana de Jeju. Fortes e independentes, elas gerenciam suas famílias e provém o sustento do povoado mesmo nos tempos mais adversos. Só pelo resumo já é possível perceber que você vai se jogar numa outra cultura e aprender muito, mas não é esse o maior trunfo de “Herdeiras do Mar”.

Arte vertical com fundo branco e borda inferior listrada de amarelo e laranja. Em laranja e centralizado está o seguinte texto, uma citação do livro "Herdeiras do mar": "Sempre olhe para a praia quando voltar à superfície, senão você perde o norte", a mãe disse, virando o rosto de Hana para que ela enxergasse a terra. Na areia, sua irmã estava sentada, protegendo os baldes que continham a pesca do dia. "Procure sua irmã depois de cada mergulho, nunca se esqueça disso. Se puder encontrá-la, você está segura."

Tudo começa com as irmãs haenyeo Eni e Hana, que estão na praia com a mãe enquanto ela mergulha. Ao perceber que sua irmã mais nova seria sequestrada por um oficial japonês, Hana vai em seu lugar. A partir daí, acompanhamos Hana vivendo a experiência assustadora de ser uma mulher de consolo e Eni em sua velhice, sempre em busca de reencontrar a irmã. É uma história de resiliência, de força feminina, seja para fugir ou encarar os fantasmas do passado. Uma prova de como a guerra é terrível com as mulheres e como as atrocidades cometidas são enterradas sem cerimônia. Um amontoado de dor, muita dor, seja a de quem vai ou de quem fica. Uma leitura que machuca, mas merece ser lida por tudo mundo, afinal, citando a própria obra, “Se ainda estão falando sobre nós, não vamos desaparecer”.

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4. “Daisy Jones & the six”, Taylor Jenkins Reid

Foto vertical com fundo amarelo. Na foto, está o Daisy Jones & the six no colo, com calça jeans e coturno branco, escorado nas malas.

De uma leitura pesada pra outra bem levinha, daquelas de fazer um chá, se enrolar nas cobertas ou espreguiçar em uma canga no sol e devorar. Contando a história de uma banda de rock que foi famosíssima nos anos 1960 que acaba no auge do sucesso, logo depois do seu primeiro álbum, graças a inimizades e polêmicas entre eles, Daisy Jones & the six é todo escrito em formato de entrevista, como se a gente estivesse assistindo a um documentário de alguma banda famosa na tv. E como boa banda de rock, pode esperar por drogas, sexo e rock’n’roll.  

Eu já conhecia o trabalho da autora graças ao “Os sete maridos de Evelyn Hugo”, mas fiquei surpresa com essa leitura. Isso porque ela vai criando os personagens e levando a gente pelos acontecimentos de forma tão fluída – o que é um trunfo considerando quantas pessoas estão dando entrevista ao mesmo tempo -, que a gente acaba querendo muito que a banda exista na vida real.

Outro ponto que me ganhou foi que a autora compôs todas as letras do disco que fez a banda ser consagrada. Ou seja, dá pra soltar a imaginação em busca de melodias. Para deixar tudo ainda melhor, Reese Whiterspoon é produtora da adaptação do livro para série, que sairá pela Amazon Prime, mas ainda não tem data marcada. Na espera desde já pra ver a cena da piscina sendo real e, principalmente, pra ouvir as músicas com arranjos. Enquanto isso, sempre vale ouvir o Rumors, do Fleetwood Mac, banda que teve altas tretas entre os membros e parece ter servido de inspiração para o livro.

Montagem com fundo branco e borda inferior amarela e laranja. No centro da montagem está a citação de Daisy Jones & the sixEntão esta é uma garota que deseja desesperadamente se conectar. Mas não há ninguém em sua vida que esteja realmente interessado em quem ela é, especialmente seus pais. E isso realmente a quebra. Mas também é assim que ela cresce para se tornar um ícone. Amamos pessoas bonitas e quebradas. E não fica mais obviamente quebrado e mais classicamente bonito do que Daisy Jones.

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5. Nascido do crime

Foto vertical com moldura laranja. Na foto, uma mão branca segura o livro Nascido do crime, de Trevor Noah

Uma das gratas surpresas deste ano, a autobiografia do comediante Travor Noah, que até então eu não conhecia, é envolvente, delicada e única. Ao contar a história da sua vida, filho de mãe negra e pai branco em pleno apartheid da África do Sul, quando isso era considerado um crime, ele vai trazendo uma série de temas sérios, como racismo, pobreza, violência doméstica, identidade e apagamento das raízes.

Embora seja difícil explicar, ainda que o livro tenha todos esses assuntos seríssimos e pertinentes, o Trevor consegue trazer momentos engraçados e leves pra narrativa. E antes que cê pense que ele vai fazer piada babaca com tema que não tem margem pra isso, muito pelo contrário. Só que a sua voz traz uma ironia, um humor na essência, que está diretamente atrelado a quem ele é e a sua mãe – uma referência fortíssima. Então é totalmente possível dar aquela choradinha numa página e estar rindo na seguinte.

Já que falei da mãe, Patricia Noah, vale destacar que a relação dos dois é uma das coisas mais lindas de Nascido do Crime. Uma guerreira, Patricia encontra mil formas de burlar o sistema e de fazer Trevor acreditar que ele pode ser tudo o que quiser, ainda que o sistema tentasse dizer o contrário. É lindo de ler e de perceber que o amor por essa mãe religiosa e sarcástica está presente em cada página do livro. Mesmo quando tudo se torna difícil. Depois de ler, fica a dica de correr pra ver os dois especiais dele para a Netflix.

Arte vertical com fundo branco e borda inferior listrada de amarelo e laranja. Em laranja e centralizado está o seguinte texto, uma citação do livro Nascido do crime: "Minha mãe me criou como se não houvessem limites de aonde ir o que fazer. Quando penso na minha infância, eu percebo que ela me criou como uma criança branca, não culturalmente, mas no sentido de acreditar que eu tinha o mundo nas mãos. Que eu deveria expressar minhas opiniões, que minhas ideias, pensamentos e decisões tinham importância. [...] Falamos sobre seguir nossos sonhos, mas só é possível sonhar com aquilo que se pode imaginar. Dependendo da sua origem, sua imaginação pode ser bem limitada."

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Menção honrosa

Para registrar outras leituras maravilhosas feitas esse ano, fica aqui a sugestão desses quatro livros: A Batalha de Versalhes, que já foi tema de um post só pra ele, tamanho o amor; Escola de contos eróticos para viúvas, que eu já indiquei nessa lista de livros sobre mulheres fortes; Só garotos, um clássico que é puro amor; O peso do pássaro morto, que apareceu bastante nas redes em 2020 e é um soco no estômago, uma beleza crua.

E aí, já leu algum da lista ou gostaria de ler ano que vem? Me conta nos comentários. E se tiver aquela dica maravilhosa pra compartilhar, vem sem cerimônia <3

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