As melhores leituras de 2021

20/12/2021

Está em busca de uma leiturinha nova pra chamar de sua? Pois no clássico clima de retrospectiva que costuma me acometer no final de ano, hoje venho te contar os melhores livros que li em 2021. Daquele dramalhão-novelão dos bons àquela história gostosinha pra passar o tempo, essa lista está eclética na medida pra agradar aos mais diversos gostos. Confere só!

O tempo entre costuras, María Dueñas

Começando com minha primeira leitura de 2021, que causou uma comoção nos stories porque todo mundo AMA. Tempo entre Costuras é um daqueles romanções cheios de reviravoltas, encontros, desencontros e uma protagonista que sofre horrores, mas consegue seguir forte e renascer quantas vezes for necessário, passando de uma modista de família simples a uma espiã associada aos Serviços Britânicos na Espanha durante a Segunda Guerra Mundial – no período, a Espanha era pró-Alemanha.

A história é contada a partir da perspectiva da protagonista, Sira Quiroga, e conseguimos acompanhar diferentes momentos de sua vida, ambientados em cidades como Madrid, Tânger, Tetuán e Lisboa. As descrições são precisas e cheias de detalhes, possibilitando que a gente imagine todo o ambiente da história, seus personagens – que são uma mistura de ficção e pessoas reais -, arquitetura, cores, atmosfera… Enfim, tudo mesmo! Para você ter uma ideia do que estou falando, o livro é tão feliz em criar seu universo que quando fui assistir a série – sim, existe uma série inspirada na obra – detestei porque nada parecia com o que eu tinha imaginado/construído.

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Bem, o próprio nome do livro revela que a moda – ou a costura – serão importantes para a narrativa, por isso, se você gosta do assunto, Tempo entre Costuras é um prato cheio. São várias as descrições de looks, sejam os usados por Sira ou criados para clientes, e é super interessante ver como a moda acontece em tempos de guerra – marcados por uma série de restrições e escassez de matéria-prima. Isso sem falar no que não posso falar pra não ser spoiler, mas digamos que a moda e a costura serão essenciais até mesmo pro trampo de espiã da nossa fênix aventureira Sira.

Em resumo, o livro é daqueles que te prende do início ao fim e entrega dramalhões, romance, moda, viagens e muitas reviravoltas. Entretenimento puro, que ganhou um segundo volume em 2021, chamado Sira, tamanho sucesso.

Comprar – todos terão o link do Girls pra blogueira aqui monetizar seu conteudinho: O tempo entre Costuras, Sira.

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Primeiro eu tive que morrer, Lorena Portela

Uma das coisas mais bonitas de ler – depois de ser levada para outros lugares e perspectivas – é quando o livro nos encontra no momento perfeito. É uma sintonia difícil de explicar, mas vou tentar. Depois de todo o ano presa em casa, mudança de país e seguir trancada em casa do outro lado do oceano, eu sonhava muito com voltar à praia e sentir o mar frio cortando a pele, seguido pelo sol que amacia a tensão e preenche cada poro. Pois todas essas sensações foram compartilhadas com a protagonista de Primeiro eu tive que morrer, livro de estreia de Lorena Portela. A leitura foi tão catártica que não consegui parar de ler até chegar aos agradecimentos, tudo em um dia regado a muito sol.

O livro conta a história de uma publicitária à beira de um colapso, que é obrigada pela psicóloga a tirar 2 meses de férias para descansar. Quem é da comunicação sabe bem como o universo de agências costuma ser e a protagonista vai narrar de forma bem detalhada – a própria autora passou um bom tempo nesse mercado, o que contribui para um relato intenso, triste e bem real.

Em suas “férias”, a protagonista parte para Jericoacoara, seu lugar afetivo no mundo, reencontrando amigas e uma grande paixão do passado, Gloria. O tempo em Jeri, a pausa na vida corrida, que não deixa tempo para pensar, o romance e a amizade com outras mulheres da região fazem com que a personagem entenda muito sobre si e sua vida, mas também precise deixar coisas pra trás. Essa é uma das coisas mais bonitas que o livro traz: a necessidade de pequenas e grandes mortes de nossas antigas versões para que as próxima possam surgir e florescer, ainda que ser bonito não seja sinônimo de fácil, vale destacar.

Eu já escrevi bastante, mas não podia deixar de falar que Primeiro eu tive que morrer também é um potente livro sobre mulheres, sejam as amigas de todos os tempos, as paixões que arrebatam, as chefes ou colegas que inspiram, as sábias mais velhas que nos ensinam tanta coisa com seus olhos cheios de memórias e cansaço. Ainda que o mundo patriarcal machista queira nos separar e fazer competir umas com as outras, somos a mistura das que passaram por nós e nos tornamos ainda mais fortes juntas.

Comprar: Primeiro eu tive que morrer

Malibu Renasce, Taylor Jenkins Reid

27 de agosto de 1983. Uma festa icônica que acontece todos os anos para comemorar o fim do verão, repleta de celebridades, onde tudo acontece. Um incêndio. Quatro irmãos unidos, apesar das adversidades, e apaixonados pelo mar/surf. Fins e recomeços. É essa noite histórica – e tudo que leva os irmãos Riva até ela – o que Malibu Renasce vai contar, em uma trama envolvente, que vai se tornando um caldeirão de tensões a medida em que as horas e os capítulos passam. Sabe aquela festa que está envolta em climão? Pois é.

Malibu Renasce é aquele livro perfeito pra fugir da realidade e se deixar envolver, enquanto bebe um chá e degusta aquele chocolatinho. Eu sou muito suspeita porque amo AMO A-M-O os livros da autora – que também escreveu Daisy Jones & The Six, que estava na retrospectiva 2020 aqui do blog, e Os Sete Maridos de Evelyn Hugo –, mas com grandes amores vêm grandes expectativas que, no meu caso, Taylor Jenkins Reid atendeu perfeitamente.

O livro acontece no dia da festa, com capítulos de flashback para contar a história da família. E por mais que seja super divertido ler o que está acontecendo na tal noite, o mais especial de Malibu Renasce é a relação dos irmãos, que são completamente unidos e estão ali uns pelos outros não importa o que aconteça. Um livro pra rir, chorar um pouquinho, revirar os olhos – sobretudo quando o pai, Mick Riva, aparece – e acompanhar boas fofocas. Como acontece com todos os livros da autora, acabei querendo ver a história ganhar vida no cinema ou em uma série – felizmente, já foi divulgada a notícia de que os direitos da série foram comprados pelo Hulu, então, vem aí demais!!!!

Agora vem a minha curiosidade preferida – e que eu só descobri bem recentemente: o pai dos protagonistas, Mick Riva, é o terceiro marido de Evelyn Hugo e também está presente em uma festa na casa da Daisy Jones!! Ou seja, existe um taylorverso delicioso pra você se esbaldar nesse final de ano.

Comprar: Malibu Renasce, Os sete maridos de Evelyn Hugo, Daisy Jones & The Six

Suíte Tóquio, Giovana Madalosso

Mais uma leitura pra devorar, Suíte Tóquio conta a história de Maju – babá, uma entre muitas do “exército branco”, uma mulher humilde que trabalha na casa de famílias desde muito jovem e que tem o desejo de ser mãe – e Fernanda – mãe de Cora e chefe de Maju, uma mulher de negócios da classe média-alta atarefada. Maju dedica sua vida a cuidar de Cora, sendo obrigada até mesmo a viver na casa da família, até que um dia decide sequestrar a menina – isso não é spoiler, está escrito até na contracapa do livro, ok? É no momento do sequestro que a história começa e vamos acompanhar as duas personagens intercalando seus relatos em primeira pessoa sobre o que está acontecendo naquele dia e relembrando histórias importantes do passado que as fizeram chegar até ali.

Ágil, direto, com um humor amargo e com uma habilidade incrível de tornar o cotidiano em algo belo, sem nunca perder esse véu de tristeza, Suíte Tóquio vai falar de maternidade, vai falar dessas mulheres que criam filhos de outras pessoas sem poderem criar os seus próprios direito, vai falar de classes sociais, de uma elite financeira hipócrita. Um bom exemplo disso é o próprio nome do livro, que faz alusão ao quarto da babá, que é coagida a se mudar para a casa da família, deixando sua própria vida de lado. Para compensar o peso na consciência, Fernanda reforma todo o quarto tentando torná-lo em algo mais confortável, com luxos que “uma pessoa como Maju não teria”. Ainda assim, o lugar é uma prisão para ela, que usa inclusive o termo “visita domiciliar” para falar dos domingos que vai para casa para poder ficar com o marido.

Enquanto devorava capítulos quase ansiosa pra saber o desfecho da história – que é muito bonito, por sinal -, Suíte Tóquio entregou muitos momentos fortes e emocionantes justamente porque seguimos tendo muitas Majus, muitas Fernandas e muitos Otávios – o pai de Cora – em nossa sociedade. O trecho acima, por exemplo, fala sobre a relação das babás com as crianças que cuidam e criam, de como são chamadas “parte da família” enquanto for conveniente, mas depois perdem todo o vínculo com essas crianças que cresceram em seu colo, ganhando sua devoção, carinho, disposição e muitas vezes amor. Giovana faz um trabalho belíssimo em compor essas duas protagonistas tão reais e cheias de camadas, que podem fomentar tantas conversas. Um livro delicado, sincero, de cotidianos e viagens – seja a fuga de Maju para sua pacata cidade natal, seja o mergulho de Fernanda para dentro de si, sua carreira, maternidade e casamento disfuncional.

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Torto Arado

Sim, eu cheguei atrasada nessa tour, mas por uma mera questão de distância física. Mas fiquei lá, firme e forte, vendo todas as resenhas e entusiasmadas da ceita “Você já leu Torto Arado?”, esperando o momento de me tornar uma delas. Em outras palavras, a expectativa estava alta, altíssima! Comecei a ler com um medinho, mas é passar cinco minutos com o romance de estreia de Itamar Vieira Júnior pra ser fisgada. A verdade é que Torto Arado é um acontecimento, com uma prosa lindamente escrita até mesmo nos momentos mais duros.

Eu sei que é praticamente impossível que você não tenha ouvido falar sobre esse livro, vencedor dos prêmios Jabuti e Oceanos, mas vou te dar um contexto. Torto Arado conta a história das irmãs Bibiana e Belonísia, que vivem nas profundezas do sertão baiano com sua humilde família de trabalhadores rurais, que são descendentes de escravizados e ainda vivem em uma situação análoga à escravidão, trabalhando para ter uma casa de barro e um pedacinho de terra enquanto estiverem vivos. As duas passam por um acidente ainda crianças e precisam se tornar absurdamente unidas.

O livro vai acompanhar o crescimento das irmãs e sua relação com a terra, seja no trabalho de cada dia, seja na tentativa de libertar esse território e seus moradores, seja na simbiose do corpo com esse espaço. A disputa pelo território é outro ponto muito presente no livro, que explica de forma muito didática, emocional e forte a quem pertence essa terra. Narrando um longo período de tempo e como as diferentes gerações vão entender esse assunto, Torto Arado é uma leitura fundamental e fala tanto do Brasil de hoje que dá um aperto forte no coração.

Uma história potente e bonita, delicada, sofrida, sensível e tão forte quanto suas protagonistas. Um retrato muito importante que, felizmente, vai se eternizar entre os clássicos da literatura brasileira contemporânea. Inclusive, fica aqui a dica de assistir o autor no Roda Viva.

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Ricardo e Vânia, Chico Felitti

Desde que li a famosa reportagem de Chico Felitti para o Buzzfeed sobre Ricardo, mais conhecido como Fofão da Augusta, fiquei completamente apaixonada pela habilidade do Chico de contar histórias – que pode ser conferida em seus livros, reportagens para revistas ou podcasts como Além do Meme. Após receber a informação de que Ricardo está internado em um hospital como desconhecido, já que não possui nenhum documento e ninguém sabe como ele se chama de verdade, Chico vai atrás da história de Ricardo. Entre familiares, amigos e conhecidos, Ricardo e Vânia nos apresenta uma história marcada por reviravoltas, altos e baixos, sucesso e decadência, amor e solidão. É, também, uma história sobre pessoas marginalizadas por serem quem são.

O mosaico de relatos e encontros com o próprio Ricardo – que morre dois meses depois de a reportagem ser publicada – resgata não só seu nome, mas sua trajetória como cabelereiro muito requisitado nos anos 70 e 80, artista de rua, drag queen, figura importante do underground de São Paulo, esquizofrênico, extravagante, espirituoso, visionário, transgressor e muitas outras coisas. E esse trabalho de revelar e humanizar um personagem público, que teve a maior parte de seus feitos apagados da história por muito tempo, é o que torna esse trabalho tão especial e importante socialmente.

E para quem está se perguntando quem é Vânia, explico. Depois de publicar a reportagem no Buzzfeed, Chico recebe uma mensagem de Vânia, que um dia já se chamou Vagner e foi o grande amor da vida de Ricardo. Vânia vive em Paris e Chico viaja para lá para entrevistá-la. Pois além de descobrir mais sobre Ricardo, também encontra uma segunda personagem interessantíssima, que mudou de país levando apenas coragem, revolucionou o mercado do sexo em Paris e teve que se reinventar um milhão de vezes. Chico passa então a contar a história dela, com a sensibilidade de sempre e uma leveza que cai bem em uma trama tão complexa e por vezes triste.

Trazendo a importância de eternizarmos aqueles que o sistema quer apagar, Ricardo e Vânia é uma leitura que eu indico para todo mundo, sobretudo para jornalistas, escritores e contadores de história. É preciso muita sensibilidade, escuta, interesse por gente de verdade para escrever um livro desses – o que Chico tem de sobra!

Comprar: Ricardo e Vânia

Menções honrosas

Aqui vão outras dicas de leituras muito boas que fiz esse ano e merecem uma atenção. A Uruguaia, de Pedro Mairal, narra a história de Lucas, um escritor argentino de meia-idade, que se sente frustrado com a vida profissional, com o casamento e a paternidade. Ele vai para Montevideo sacar dinheiro e reencontrar uma grande paixão idealizada e é aí que a história toda acontece, entre o presente e flashbacks de sua vida. Uma trama muito gostosa de ler, irônica, engraçada e sincera. Já Minha sombria Vanessa trata de um assunto bem sério e pode trazer gatilhos para muitas garotas. Ela é uma adolescente de 14 anos quando um professor começa a assediá-la, a partir daquela narrativa de estar apaixonado. Os efeitos dessa relação a longo prazo e como a nossa sociedade aceita, romantiza e até incentiva com inúmeros exemplos na literatura, cinema, etc – alô Lolita – vai ser muito tratada no livro, assim como a diferença entre o que acontece com a protagonista e o professor quando o “relacionamento” é descoberto.

A trança é uma leitura muito especial, que entrelaça três mulheres completamente desconhecidas, que vivem uma em cada canto do mundo. A história da mãe e filha indianas emociona demais, enquanto a proposta do livro de mostrar o quanto podemos estar unidas, não só em nossos conflitos como mulheres no mundo, mas também por pontos que jamais imaginaríamos é bem interessante. Por último, Talvez você deva conversar com alguém é aquela leitura importantíssima pra falar sobre a singular relação que temos com nossas terapeutas e também com o processo complexo de se analisar, revelar e esconder.

Comprar: A uruguaia, Minha sombria Vanessa, A trança, Talvez você deva conversar com alguém

Ufa, é isso! Espero que cê goste dos livros e se tiver alguma indicação pra compartilhar comigo, vem de comentário!

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