Num domingo como hoje

Montagem com duas fotos dispostas lado a lado com fundo branco. Na primeira foto, alinhada à esquerda, está uma taça de vidro com água e limão posicionada em uma janela de madeira com vista para uma rua, com muitas árvores verdes e raios de sol. Na segunda foto, alinhada à direita, Marcie está sentada na grama, com várias árvores de fundo, sorrindo levemente para a câmera. O look é um vestido envelope de mangas curtas com flores amarelas e roxas, óculos escuros redondos marrom e brinco laranja em círculo. Abaixo das duas fotos, está o texto, escrito em laranja com letras maiúsculas "Da janela, tudo é saudade".

Hoje vai ser um dia de sol daqueles bonitos que preenchem a casa. Na minha janela, o sol vai entrar perto das duas da tarde, momento em que eu corro pro sofá, não interessa o que esteja fazendo, e vou andando junto com os raios até ser fim de tarde de novo, coisa que passa tão rápido todos os dias, mas eu não deixo de me espantar. A cidade começa a acordar mais preguiçosa, afinal, é domingo, alguns carros na rua e os pássaros estão cantando aqui fora. Lá fora. O mundo parece tão distante, olhando aqui da minha janela, que tem dias que eu me sinto como se fosse um enfeite ou uma planta colocada no parapeito pra pegar sua dose de sol do dia. Vejo todo mundo passar – e como passam – enquanto aqui permaneço, no máximo repondo as vitaminas que antes vinham de um jeito mais fácil, simplesmente vivendo por aí. 

Num domingo como hoje é bem possível que começasse quase tudo igual. Eu iria acordar primeiro, porque meu namorado sempre dorme mais, abrir as janelas devagarinho, passar café e fazer a mesma panqueca de banana de sempre. Iria ouvir a cidade preguiçosa começando a se mexer, sentir o cheirinho da manhã. Passear pelo feed pra ver onde quem não saiu comigo estava. Provavelmente teria uma ressaquinha de fundo ou um orgulho de ter sido muito hidratada na noite anterior. Algumas roupas pra tirar do chão da sala, um incenso aceso, um bom dia pras plantas. Um café lento e preguiçoso. E até aqui, quase tudo é igual. Eu já não tenho o mesmo endereço, nem as mesmas plantas – que agora fazem parte do domingo de outros amigos.

Depois desse momento comigo, apreciando o silêncio, num domingo como hoje eu e meu namorado iríamos planejar o dia. “Quer fazer o que?”. Tá aí uma pergunta que me gera saudade, mas, ao mesmo tempo, quando repetida hoje, traz uma impaciência, um vazio. De escolher entre Netflix e similares, entre ler ou fazer exercício na sala, entre cozinhar isso ou aquilo. Enquanto isso, da minha janela, vejo o hoje parecer um domingo qualquer pra muita gente. E dói. Porque num domingo como hoje, eu estaria esquentando a água pro chimarrão e esquecendo de colocar a canga na bolsa – o que, pra uma pessoa alérgica que está prestes a sentar na grama, não é lá uma boa ideia. Iria sair de mãos dadas com esse carinha que eu amo e ver o nosso bairro, tão conhecido por ser noturno, na sua versão matinal. Provavelmente iria começar na redenção, lugar base quando a gente não sabe pra onde ir. Almoçar uma coisinha gostosa ou tomar um sorvete, ver o brique com os mesmos expositores de sempre. Caminhar bastante, contando a semana, debatendo filmes e livros e tudo. Passar pelas feirinhas de rua. De repente ir na Orla. Com certeza ir a um café no fim de tarde. Andar mais um pouco. Com uma pequena nostalgia, porque uma nova semana estava prestes a começar e eu queria era ficar nesse domingo, despreocupada e leve. Feliz.

isso é um anúncio!

Em alguns domingos como hoje, eu estaria na casa dos meus avós, bem grudada, vendo meu pai começar os preparativos pro churrasco e minha vó colocar a cerveja pra gelar. Veria minha mãe chegando um pouco mais tarde e a conversa acabar só na hora em que eu estivesse entrando no ônibus pra voltar pra casa. Nesses dois tipos de domingos tão meus, naqueles minutinhos antes de dormir, eu agradeceria o quanto o dia tinha sido bom. E que saudade, de dias bons de verdade. Não bons que trazem consigo o complemento “na medida do possível”. Bons de gerar memória. De arrepiar os pelinhos do braço. Hoje, até os dias preguiçosos em casa, que eu valorizava, agora são só mais um dia comum. Outro domingo. Outra semana. Outro mês. Outro sol na janela. Hoje tem chuva. Já é domingo outra vez. Café passado. Cidade desperta. Coração pesa. Palavras, palavras, palavras. Saudade de muito, perspectiva de pouco. Mais gente passa. Mais gente some, num suspiro doloroso, que pra uns grita e pra outros parece que sequer existiu. Permaneço. Na janela. Com saudade dos domingos. E olha que sempre me achei uma pessoa de sábado, quando o fim de semana tá recém começando a se desenhar e as possibilidades são muitas. 

Talvez o domingo traga conforto e, vamos combinar, está tudo desconfortável agora. Até o mais gostoso dos sofás seria trocado por uma grama rala se a gente pudesse. Mas não pode. Alguns fingem que pode. Num domingo como hoje, a minha janela é o único lembrete de que existe vida lá fora, mas também existe perigo – e parece que ele só é visível aqui do segundo andar. Diferente de antes, meu coração leve vai estar apertadinho com todos os rostos, sabores, lugares e sensações que agora só fazem parte do antes. Às 14h vou sentar no sol, torcendo pra que ele aqueça aqui dentro, porque, em domingos como hoje, eu não dou conta. Nem de terminar esse texto com alguma frase de impacto, que traga esperança ou carimbe de vez a tristeza. Quem sabe no próximo, pondero. Quem sabe.

Montagem vertical com quatro fotos, dispostas lado a lado em duplas, duas em cima, duas embaixo. O fundo da montagem é branco com partes amarelas. Foto 1 (em cima e alinhada à esquerda): Marcie e Ícaro, um homem com barba longa castanha e cabelos lisos presos em um coque), estão sentados em um banco em um parque, com árvores ao fundo. Ícaro toma uma chimarrão. Foto 2 (em cima, à direita): Uma mesa de madeira com dois pratos brancos, um deles com croissants e pão chiabatta, o outro com morangos, kiwis, mangas e granola. Um copo transparente de vidro com suco de uva e uma porção de geleia. Foto 3 (embaixo, à esquerda): Marcie está sentada na grama de um parque, com o céu azul e árvores ao fundo. O look é composto por uma blusa de lã de mangas longas e gola alta com listras horizontais largas bordô com bege e calça de alfaiataria marrom. Foto 4 (embaixo, à direita): Marcie e Ícaro fazem uma selfie de frente para um céu azul. Os dois sorriem sem dentes.
uma parcela minúscula do antes

Você também pode gostar: