Yellow

dezembro 7, 2014 6:38 pm

sdasdasdsad

Já são oito da manhã, eu ainda não estou sentado no chão da sala com milhares de papéis rabiscados, o sol deve estar entrando pela janela do seu (e tão meu) apartamento bagunçado, batendo na sua tatuagem da costela, que você chora todas às vezes para retocar, duas horas depois que sai do tatuador ‘Eu não quero que ele me veja chorar!’. Você é tão forte. Segura um mundo pesado de pessoas pesadas em suas costas sem dizer uma palavra, mas quando diz… Seus olhos choraram as tempestades mais fortes, sem sentido e poéticas que eu podia presenciar nessa vida. E você sabe o quanto gosto de observar tempestades. E essa poderia ser a forma como eu te diria que te amo, mas seria suficiente? Não.  Você não acreditaria. Eu acredito? Talvez seja por isso que demorei tanto tempo para escrever sobre você, você precisa ser entendida em cada pedaço, tem tantos pedaços, que um escritor como eu precisa sentar semanas, meses, anos, uma vida, para entender o quão incrível você é. Sim, você. Chora não, Cecília, hoje, mais do que nunca, eu só queria que você entendesse que é uma das pessoas mais especiais que chegaram por aqui.

Você apareceu de repente, meio calada, meio sorrindo do meu jeito meio atrapalhado de dançar. Tocou a campainha das minhas melhores madrugadas, com um vinho barato na mão e seu pijama de ursinhos sem cabeça, eu abri, com o maior sorriso do mundo, te deixei entrar nos meus problemas, nas minhas bandas preferidas e nas centenas de músicas que escrevi, mas nunca cantei. Você queria ouvir. E, por você, eu queria cantar. Cantei. Em todos os seus aniversários, em todos os dias me merda em que você perguntava porque a vida te detestava tanto. Detestar. Como se alguém, mesmo que fosse a vida, pudesse te detestar. Você está rindo agora, discordando e eu queria poder te sacudir, ou, simplesmente, te emprestar meus olhos pra que você se visse.

Como as palavras sempre foram uma extensão dos meus olhos, com elas vou tentar te dizer, gritar, se precisar, o quanto AMO CADA COISA EM VOCÊ, TODAS ELAS, ATÉ AS QUE VOCÊ ODEIA. E não adianta nem tentar gritar mais alto. Eu sei de tudo, Cecília, sei das suas manias insuportáveis de ter as coisas milimetricamente iguais, sei do seu medo de altura que briga com minha vontade de voar, da sua família complicada demais, que, inclusive, me adora, do seu trabalho que consome mais da metade do nosso tempo, sei que você gosta de filmes bregas, aliás, eles não são tão ruins, e de assistir reality shows, inclusive, a tal Joane devia ter ficado até o final mesmo, sei que você queria ser mais solta e despreendida, eu, particulamente, acho sua tendência à tragédia um charme, que não queria ter tantas histórias cagadas e, acima de tudo, que você não acredita mais nisso que eu vim acreditando a vida inteira ‘existem tantas pessoas filhas da puta por aí, metade delas me encontraram no caminho, sendo assim decidi não acreditar mais em amor’.

Essa sua confissão da madrugada, entre um sorriso pesado, me quebrou, você não podia estar fechada, não podia não mais acreditar. Mas o que eu podia fazer? Nunca fui muito bem o cara que gostava de convencer pessoas de alguma coisa, sempre preferi deixar de lado a insistir muito. Só que era você. Eu nem sabia escrever seu sobrenome direito, mesmo assim, não podia te deixar ir. Não deixei. Acariciei seu cabelo enquanto todas as feridas foram limpas, segurei sua mão enquanto você queimava o passado que incomodava, tapei seus olhos e te ajudei a atravessar a ponte suspensa a cinco metros do chão. Aos poucos, apertando minha mão forte demais, você atravessou, abriu espaço na sua casa e em você pra que eu trouxesse minha confusão pra misturar com a sua. Sorriu por estarmos tão fadados ao fracasso e mesmo assim parecermos dois idiotas cantando em cima dos azares. Você foi minha sorte.  NÃO RI, CECÍLIA, FOI SIM.

A verdade é que eu nunca conheci alguém como você. Você sabe. Eu repito isso praticamente todos os dias, enquanto você sorri sem jeito e mexe nos cachos que eu tanto adoro. Você é tão boa, que eu, tão acostumado a encontrar pessoas normais, às vezes não sei como proceder. “O que o mundo não entende é que não custa nada, ao invés de ser imbecil, ser uma boa pessoa pra quem te encontrar.” Foi nesse dia, mais que em todos os outros, que eu descobri que você era a pessoa com quem eu queria me mudar do país, ter dois filhos e três gatos. E, mesmo assim, segue se achando a pessoa mais comum da calçada. É inacreditável. Se você visse a luz amarela do sol batendo em você enquanto dorme como eu vejo… É tão perfeito que chega a doer. Sim, perfeito. Com todas as nossas cicatrizes e todas as suas gargalhadas sem som ‘EU NÃO CONSIGO RIR ALTO’. E, te vendo, minha música preferida faz sentido, ‘it was all yellow’.

Texto: Marcie



Categoria: