Us Against the World

junho 12, 2013 10:14 pm

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Carolina não tinha ido para a faculdade hoje. Sentada, no meio de toda a bagunça que Pedro tinha feito na cama, naquela sua tentativa diária de empilhar tudo que visse pela frente para ficar quentinho, olhava para o calendário. Era dia 12. Dia dos namorados. De provar pro mundo que você não está sozinho. Carolina detestava esse dia. Pedro amava. Carolina amava Pedro e foi com esse pensamento que desistiu de assistir sua aula preferida e estava ali, pesquisando como fazer a comida que ele mais gostava e, se tivesse sorte, uma decoração aconchegante que coubesse naquele apartamento minúsculo.

Pedro cozinhava muito melhor que ela e vê-lo tão entretido na cozinha,  com aquele sorriso gigante que, junto com sua barba desgrenhada, mal cabia no rosto, era quase como uma pintura, uma foto que ela podia ficar horas vendo e nunca iria se cansar. Tomou um gole de seu café amargo e sorriu. Lembrou das primeiras brigas, quando achou que ele era tão radiante, tão intenso, que não caberia no coração pequeno dela. E provavelmente não caberia mesmo, mas desde que o conheceu, o coração dela já devia ter triplicado de tamanho. Então se lembrou do dia em que confessou que detestava o dia dos namorados, no dia dos namorados. Ele estava tentando pela milésima vez dar o nó na gravata (que nunca usava) até que ela explodiu. “Pedro, eu te amo com suas camisas amassadas, suas camisetas de banda e esse seu cabelo bagunçado! Não com essa gravata. Ah, também detesto o dia dos namorados, se você quer saber! Mas te amo.” Ele riu, jogou a gravata no chão e a beijou. A partir daí, nunca mais comemoraram, embora no ano seguinte ele tenha deixado uma flor no travesseiro.

Pedro tinha trabalhado no horário de almoço, para poder sair uma hora antes. Estava tomando um sorvete e, ao passar pela praça e ver todos os casais de mãos dadas pensou em Carolina. Na verdade, tinha pensado nela o dia inteiro. Era o dia de se celebrar o amor. Menos para ela. Ele sempre gostou de datas comemorativas, de entregar presentes, de fazer pessoas felizes, mas tudo isso ficava em segundo plano, graças a uma coisa que ele gostava mais do que tudo isso. E essa coisa tinha brilhantes olhos verdes, braços tatuados, uma covinha no queixo e o melhor perfume do mundo. Comprou uma flor, ele podia fingir que tinha comprado sem lembrar que dia era hoje. Ela não iria acreditar, mas gostava de flores. E ele gostava de vê-la com flores.

Na noite anterior, ela estava na sala, em seus típicos blogs de decoração, vendo como fazer um quadro na parede, para que cada pessoa que ali chegasse pudesse deixar seu recado com giz. “Amor, a gente podia tirar a geladeira daqui.” “E colocar no quarto?” “Até que não é má ideia.” E ao ver a empolgação dela, começou a pensar que não era má ideia mesmo. Carolina tinha esse brilho, essa faísca que o fazia acreditar que viver dentro da geladeira não era má ideia. Ao finalizar as compras, riu, pensando na idiotice que estava prestes a fazer. Correu para casa e, sem nem tirar sua melhor camisa, começou a pintar a tal parede. Esperou. Não tinha ficado nada mal, escreveu a letra da música deles e um “Isso é porque eu te amo. Todos os dias, não porque é aquele dia que você não gosta e do qual não falamos. Caso você esteja se perguntando, a geladeira está no nosso quarto.”

Carolina entrou derrubando suas sacolas. Não tinha muita coordenação motora e talvez tivesse comprado coisas demais, mas não tinha a menor ideia já que nunca tinha organizado um jantar desse tipo sozinha. O cabelo estava desatando do nó e seus braços pareciam pequenos demais. Entrou direto na cozinha e, ao colocar as compras na mesa, virou para a geladeira. Sorriu o maior dos sorrisos. Pedro, Pedro! Pegou suas sacolas e foi para o quarto. Lá encontrou o cara mais lindo do mundo, com uma camisa manchada, uma pilha de cobertores e uma geladeira, fazendo um sanduíche. Ele? Teve seu primeiro jantar do dia dos namorados feito por Carolina, com uma decoração que finalmente coube na pequena sala e com a gravata que tinha jogado no chão três anos atrás atada no cabelo encaracolado dela. O mundo podia estar se amando ou se destruindo lá fora, podia marcar dia 12, dia 30, eles se amavam e era isso que importava.

Texto: Marcie



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