Long way

novembro 1, 2015 4:00 pm

O vento batia no vestido de Letícia fazendo com que ele dançasse em um ritmo lento e preguiçoso, a noite tinha sido ótima, como costumava ser quando Pedro estava presente, parecia que, quando eles estavam juntos, qualquer lugar ficava mais divertido do que já tinha sido. Ela sorriu. Pedro tinha essa coisa, de olhar nos olhos dela como se só os dois importassem, seja na cama bagunçada dele, enquanto os dois conversavam sem roupa por horas, seja no meio de uma multidão. Sorriu mais uma vez. O vento batia no vestido de Letícia, Pedro, graças a isso, conseguia ver a pequena tatuagem que ela tinha na coxa, aquela que era sua preferida, mais do que as que ele desenhava com os dedos nas costas dela. Ela estava sorrindo e como ele gostava da ruguinha que os olhos azuis dela criavam ao sorrir. Poderia contar mais mil piadas ridículas só para que ela seguisse olhando para ele. Quando ela olhava, segurando sua cerveja pela metade, e criando teorias só dela sobre a vida e as coisas que ele contava, Pedro tinha vontade de segurá-la, não só até a saideira, para então divirem o táxi e o quarto, mas por um tempo que ele tinha prometido não querer segurar ninguém.

Os dois seguiam caminhando devagar, quase parando, com as mãos timidamente encostadas. Letícia pensava que pela primeira vez queria entrelaçar os dedos com alguém, com direito a carinho e tudo. Pedro só queria parar de andar. A cada passo, estava mais perto de deixá-la em um ônibus que, diferente das outras noites, não teria como destino a casa dele. Ele tinha enrolado no banheiro, conversado com o caixa do bar, fingido não encontrar o cartão e, ainda assim, ela não tinha perdido o horário. E ela queria tanto perder. Não voltava pra casa há uma semana, a mala sempre lotada, já quase não tinha nada limpo, a cada ligação dos pais, inventava uma desculpa diferente. ‘Amanhã eu tô de volta, prometo.’ Sete promessas. Nenhuma cumprida. O que seria só mais uma noite? Mas não iria falar. Ela não sabia muito sobre como era querer realmente perder tempo com alguém, mas definitivamente era cedo, se ele quisesse, seguraria a mão dela de uma vez e a levaria pra qualquer lugar, tiraria seu vestido e as desculpas de mais uma noite fora ficariam por ser dadas um dia. Seguiam andando enquanto conversavam sobre qualquer coisa que, ironicamente, parecia ser a melhor coisa do mundo.

Pedro checou o celular pela milésima vez. Ainda faltavam vinte minutos. Em cinco chegariam no destino. Olhou para ela que, entretida, falava sobre o último CD da banda que ele sequer conhecia, mas poderia, só pela empolgação dela, adorar. Na verdade já adorava. Não a banda. Mas Letícia. Adorava tanto que decidiu aproveitar uma das coisas que achava mais divertida nela, a falta de direção, para pegar o caminho mais longo. Seria uma pena se levassem mais tempo, ainda mais se fosse o tempo que ‘não tinham’. Ela seguia tão envolvida que nem iria perceber. Letícia realmente não costumava saber muito bem por onde andava, isso rendia ótimas histórias e uma insegurança enorme a cada vez que precisava ir para um lugar novo sozinha. Obviamente, esses eram os convites de Pedro. E ela ia, com um pouquinho do coração na boca, prestando atenção e contando as quadras, caso tudo desse errado e ela precisasse voltar. Acabou aprendendo um pouco com isso e, quando ele virou a esquina na loja de flores para o lado oposto, percebeu que aquele não era o caminho que tinha memorizado. ‘Ele deve estar pegando um atalho’. Seguiu e, ao pensar que estava mais perto do tchau, enlaçou um dos dedos na mão dele. Pedro sorriu, ‘ela deve achar que estamos chegando’. Perguntou o que ela ia fazer no fim de semana, ela sugeriu uma festa, enlaçaram mais um dedo.

Ele contou sobre o dia terrível de trabalho, sobre as férias que queria tanto ter no próximo mês, combinou de buscá-la para a festa e de beberem mais uma cerveja enquanto sexta não chegava. Ela repetiu todas as desculpas que deu para os pais na última semana, contou da viagem que faria com os amigos e do taxista que tinha balas, água e wi-fi no carro. Comentou que poderia ter morrido ao aceitar doces de estranhos, mas que só percebeu isso depois de engolir a bala. ‘Até senti minha garganta meio que fechar, juro!’. Pedro riu. Não tinha mais dedos para enlaçar nos dela. Estavam, finalmente, de mãos dadas. Conferiu o relógio de canto. Faltava um minuto. Ela, pela primeira vez, perguntou quanto tempo faltava. Ele sorriu. Correram até o sinal, ‘TRÊS SEGUNDOS PRA FECHAR, PEDRO, CORRE!’. Dois segundos. Pararam, ainda de mãos dadas. Um segundo. Os carros começaram a andar. Seguiram olhando para a frente. O sinal abriu e fechou mais duas vezes. Letícia não ia voltar hoje. Sorriram. Ela começou a falar sobre a próxima desculpa que tinha planejado e pediu o celular dele emprestado. Ele a beijou. Para quem já tinha pego o caminho mais longo, podiam estacionar um pouquinho.

Texto: Marcie


Categoria: