Born To Die

outubro 27, 2014 9:02 pm

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Minhas pernas já não fazem muito sentido, cada uma parece querer ir para um lado, ironicamente, como eu. Enquanto pago todo o mar que bebi hoje, secretamente espero que você esteja em casa, para me receber com um beijo na testa e me colocar no chuveiro, depois na cama, enquanto mexe em meu cabelo e escuta as histórias de tombos e amigas que fiz no banheiro. É claro que você deve estar bem longe daqui, por favor, esteja. Não pense que foi covarde, inclusive, te admiro por conseguir, visto que, mesmo depois de ter tentado tantas vezes, ainda sigo dando o mesmo endereço para o taxista. Por favor, me diga que pelo menos você deixou um telefone, um endereço, não, melhor, uma foto 3×4 – inclusive nunca entendi como você consegue ser a única pessoa que fica bem nessas fotos do caralho. Uma vez, em um livro, o garoto principal queria viver de forma que, se a vida pudesse fotografá-lo casualmente, a imagem saísse bonita, se ele soubesse que você existe, provavelmente morreria de inveja. Você riria, agradecendo ao álcool por minha belíssima sabedoria da madrugada e depois me beijaria, sem jeito. Sim, eu sei, é possível que ainda demore para que eu deixe de saber interpretar você e de comprar revistas de jardinagem que o moço da banca jura que são para mim. Pelo menos, diz que levou com você aquela sua camisa que é minha roupa preferida do mundo, suas plantas e, principalmente, nossas fotos juntos – essas não com você, entregue tudo para a primeira pessoa que passar, melhor, faça uma fogueira para se livrar da filha da puta que fui. E NÃO ADIANTA TENTAR DIZER QUE NÃO FUI. Eu sei que sim e, acredite, essa é a pior parte.

Juro que preferia que fosse você, que cansado de tudo, pegasse minhas roupas e jogasse da janela. Preferia ficar uma semana em casa, sentindo sua falta e ouvindo Lana del Rey do que ter que fazer você ler minha carta. Consigo imaginar sua cara enquanto lia e sabia exatamente onde eu queria chegar. Você sempre sabe. Até mesmo quando eu não sei. Inclusive, essa é sua principal arma contra mim nesse conturbado jogo que chamamos de ‘nós’. Nós. Três letras. Meses. Você lembra o quão difícil foi para mim conseguir nos categorizar na mesma palavra? Enquanto isso, você colocava meu nome na sua secretária eletrônica e não se importava em responder todas as perguntas da minha mãe – metade delas, nem eu sabia direito a resposta. Você era tão certo, tão convicto, tão sincero. Então eu cheguei. Te baguncei. Virei suas certezas do avesso, sua convicção charmosa – e completamente irritante – foi ficando mais velada e cautelosa, eu, que parecia tão frágil, podia te quebrar a qualquer instante. Sim, eu lembro que essas foram suas exatas palavras naquela noite em que dançávamos no jardim secreto do casamento do seu melhor amigo. Você me disse isso sorrindo, como se fosse a coisa mais linda. Eu quebrei. Então eu era essa que iria te destruir? Eu não podia ser. Eu não queria ser. Mesmo assim, agora você deve estar deitado no tapete da sala, bagunçando o cabelo mal cortado, enquanto tenta escrever motivos pelos quais eu deveria ficar. Esqueça. Apague tudo. Inclusive a luz quando bater a porta. Bata. Forte. Na verdade, me espere. Me dê um último  beijo, tire meu vestido, me segure como se não fosse soltar e depois vá. Nós sempre soubemos que teríamos que soltar. Nascemos com um curtíssimo prazo de validade, as margaridas que você comprou para festejar nossos avanços poderiam facilmente, a qualquer momento, serem usadas para nosso enterro. Então, por que parece tudo tão esquisito agora?

Depois de ser quase expulsa do táxi oito vezes por estar com metade do corpo para fora da janela, finalmente estou na frente do meu prédio. Pensei em contar até cinco ante de abrir a porta, mas nós dois sabemos que eu não sou esse tipo de garota. Empurrei-a e encarei a sala vazia. Você levou mesmo tudo. Até as plantas. Uma cerveja ainda gelada indicava que você tinha demorado para se decidir. Decidiu certo. Bebi a cerveja. Precisava de mais uma. Enquanto me equilibrava na geladeira, um envelope caiu da porta. Sua letra de criança pedia para eu não colocar fogo nele. Sorri. Essa realmente tinha sido minha ideia inicial. Uma carta. Sua. Eu não estava preparada para ler. Encarei o envelope pelo que pareceu uma semana. Tinham se passado só quinze minutos. Minhas paredes pareciam ter sua voz. Então decidi ir para o único lugar no qual sabia que não iria te encontrar. “Eu não consigo entender porque tanto tempo nesses lugares minúsculos, com mil desconhecidos ao redor e música que a gente nem quer ouvir.” Eu amava o desconhecido, as mil histórias acontecendo ao mesmo tempo e as músicas que faziam com que eu me perdesse em mim. Com o tempo, você aprendeu a gostar das luzes que piscavam “na verdade, eu gosto do jeito como elas batem em você, com esses olhos perdidos”. Cheguei. Pessoas dançando, beijos começando, choros em cantos, pessoas perdidas… tudo estava no devido lugar. Menos eu. Sua carta queimava dentro de meu vestido. Bebi mais dois mares, dancei mais seis discos. Praticamente me sentia flutuando, com os braços para o alto, em uma melodia triste. E então percebi que queria correr. Muito. Até chegar naquela maldita esquina e gritar o quanto ela não devia ter existido.

Corri. Dos nossos dias juntos, da sua voz rouca, da nossa música juntos, dos seus desenhos nas paredes do meu quarto, da minha queimadura fazendo nosso primeiro almoço, dos seus carinhos na têmpora que tiravam as minhas enxaquecas por não conseguir dar fim a minhas personagens e histórias, de nossos fins de semana no campo dormindo na grama, de seu beijo na nuca, da sua respiração no meu ouvido, da sua banda preferida que eu detestava e aprendi a gostar, de todas as pessoas que invejavam o que tínhamos, de tudo o que tínhamos, do que nunca teríamos, de nosso prazo tão vencido. Será que estava vencido mesmo? E, se estivesse, ler as instruções nunca tinha sido meu ponto forte. Será que estar fadado ao fracasso não era exatamente o que fazia tudo isso parecer tão bom? Nós não duraríamos para sempre, eu não iria mudar para uma casa, com um gramado para as crianças andarem de bicicleta. Nós não teríamos crianças. Provavelmente nem moraríamos juntos daqui a cinco anos. Mesmo assim, será que não podíamos ser inconsequentes e deixar para tomar o porre de ‘não tem mais jeito’ daqui a alguns meses, desfrutando da estrada antes de chegar ao precipício? Será que eu já tinha tomado esse porre e só por isso estava correndo? Dobrei a esquina. Parei na beira do precipício. Lá, duas malas e cerca de vinte plantas faziam companhia pra um garoto sentado com uma margarida despetalada. ‘Marina, sua filha da puta, até que enfim!’. Sorri. Podia estar procrastinando sofrimento, podia estar perdendo a razão, ignorando os berros de ‘FIQUE, NÃO OUSE, VOCÊ NÃO PODE’ de meu cérebro. Levantei os braços. Fechei os olhos. Pulei. Iria chegar ao chão uma hora ou outra? Sem dúvidas. Mas, nós dois sabemos o quanto adoro flutuar contra o vento que bate no rosto durante a queda livre.

Texto: Marcie



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