As mulheres da minha vida

Março 8, 2018 10:29 am

Relatos soltos, meio em ordem cronológica, sobre as mulheres incríveis que passaram e permaneceram na minha vida. E isso é um recorte, a lista poderia ser muuuuuuuuuito mais extensa.

Faz tempo que eu tenho esse título guardado comigo. Primeiro, para homenagear minhas mães – é, eu tive a sorte de ganhar duas – depois para contemplar todas as mulheres extremamente fodas que passaram pela minha trajetória. Sim, eu tive sorte, mais uma vez, de acompanhada de mulheres em toda a minha trajetória. Em nenhum trabalho fui silenciada por caras, até porque sempre fomos maioria. Um privilégio enorme. Que eu agradeço todos os dias. Então hoje, entre parabenizações e ‘não existe dia do homem’, resolvi dividir essas histórias. A motivação? Que a gente crie redes de apoio cada vez mais fortes entre os nossos grupos, que a gente dê espaço e ajude outras minas a crescerem, que a gente se coloque pra cima, apoie e valorize o potencial uma da outra.

Em ordem cronológica, vamos a elas, as duas primeiras mulheres: dona Zilá e Maristela. Vó e mãe, respectivamente. Enquanto uma é a pessoa mais carinhosa, prestativa, sentimental, que adora o Discovery Home & Health – quem não, né? – e assistia até série de vampiro comigo pra gente ficar juntinha, a outra é forte, destemida, exigente, com sonhos grandes demais pra uma cidade pequetuxa e cds de rock gaúcho, que a gente ouve junto desde que eu sou pequena. Com essa junção de personalidades tão diferentes tive minha primeira aula de sororidade, sem nem saber o que isso era, láááá no tempo em que eu ainda queria ser dançarina, cantora e apresentadora – criança multitarefa.

Respeitar que tudo bem uma gostar de ser dona de casa, ganhar conjunto de copos de aniversário e orar pra Deus todas as noites pedindo o nosso bem, assim como tudo bem tentar se recompor e se jogar no mundo depois de dois filhos, empreender em tempos de crise, trabalhar, trabalhar, trabalhar. Com as duas eu aprendi a ser forte, mas ser doce. Cuidar dos outros, mas mais de mim. Estudar e voar pra longe, pra sonhar eu mesma, com elas no fundo prontas pra me segurar ou chorar em realizações ridiculamente pequenas, como meu primeiro curta-metragem na faculdade, meus discursos de oradora, meu nome pela primeira vez em uma publicação de moda. Com a inversão do tempo, de uma eu cuido com todo o carinho. Da outra eu sou confidente, estimuladora, fã de carteirinha, amiga. É sorte ter dois referenciais femininos tão distintos, com igual força pra encarar o mundo.

Aí chega o colégio, as professoras, as amigas. E aí foi outro bingo. As gurias do ensino fundamental, que se reúnem pelo menos uma vez por ano, foram com quem eu brinquei de boneca, de correr atrás dos guris, foram as primeiras com quem conversei dos boys, foram as que viravam o colégio do avesso. Se não tinha professor pra aula de dança, a gente criava nosso próprio grupo. Se precisava fazer uma festa ou rifa pra arrecadar dinheiro, antes mesmo da diretora ver a gente já tinha carimbado tudo e saído pra vender – isso é errado, não façam em casa rs. A gente cresceu, cada uma foi pra um colégio. Umas são mães. Outras nem querem. Mas o carinho tá ali, sempre. A melhor amiga também surge nesse momento, tardes uma na casa da outra, noites do pijama porque éramos as únicas que não podiam sair de noite, cumplicidade, muito apoio e, principalmente, amor. Irmandade de alma, colo que, independente do que acontecer, a gente sabe que está ali, prontinho.

O colégio também trouxe uma outra mulher extremamente importante, que me ajudou a me apaixonar ainda mais pela escrita e, por consequência, pelo jornalismo. E então a gente percebe o quanto é importante a gente incentivar nossas pequenas. Eu amava contar histórias, mas não tinha a menor ideia de que poderia ser uma jornalista. Tinha minha revista de moda desenhada com lápis de cor, meus programas de rádio gravados em fita cassete, mas precisou uma professora de português ver o meu potencial e me dizer que eu tinha tudo pra ser uma ótima jornalista lá na 6ª série. Cá estou eu, faltando um ano pra me formar, ainda apaixonada pelos potenciais dessa ingrata profissão.

Aí vem a faculdade, o turbilhão de mudanças, mais amigas que se ajudam e amparam pra aguentar o tranco com o máximo possível de sanidade, os projetos paralelos, as pautas em que a gente precisa escolher para quem dar voz, quais histórias contar, a vida profissional. Primeiro estágio na área, um núcleo com outras quatro mulheres incríveis. Passamos muitos perrengues juntas. Criamos coisas ótimas. Nos apoiamos e fomos ombros umas das outras a cada dia. Nos compramos doces, fizemos happy hours, nos incentivamos, inclusive, a sair de lá. Ficamos doentes graças ao estresse e as condições de trabalho. Choramos juntas. Nos reerguemos juntas. No meio dos problemas, minha primeira equipe feminina reforçou que somos mais forte quando estamos juntas.

A segunda equipe majoritariamente feminina chegou em seguida. Mulheres maravilhosas, com quase a mesma idade que eu, responsáveis por outras equipes, coordenando reuniões, cheias de conhecimento. De si. Do tipo de trabalho que queriam fazer. Me senti em casa em dois segundos. Recebi espaço pra criar, escrever, desenvolver, cobrir um grande evento sem nunca ter feito cobertura de nada. Com elas eu aprendi muito, me tornei uma profissional mais séria, destemida, embasada. Livre da capa da estagiária. Pronta pra fazer tudo. Forte, inspirada pelos exemplos que tinha do lado. Juntas criamos coisas que eu me orgulho muito. Juntas nos apoiamos, criamos, recriamos, nos enchemos de responsabilidades, refletimos sobre o mercado e o trabalho que queríamos – ou não – construir. Nos inspiramos, umas com o poder das outras, para sermos maiores. E fomos.

Durante todo esse tempo, bem antes disso, na verdade, eu queria o jornalismo de moda. Um nicho pequeno, com pouca oportunidade, principalmente em Porto Alegre. Depois de tentar, ficar triste por não conseguir, tentar de novo, cá estou eu trabalhando com o que sempre quis e, claro, mulheres incríveis e com uma experiência absurda no assunto prontas para trocar, passar esse conhecimento adiante, criar, reinventar, unindo o meio com meios pouco explorados. Lá, nos elogiamos todos os dias, seja o look, o batom, um texto, uma ideia…  Repensamos a moda e o seu papel, os desejos da mulher real, fazemos o que amamos com um brilho no olho que não apaga. Lá, mais uma vez, eu olho pro lado e fico felizona com quem senta pertinho. Desenho ainda mais a profissional que sou e a que quero ser. Anoto toda semana algum livro ou filme pra ver no futuro e entender pelo menos metade do que elas entendem.

Hoje, quando eu tava escrevendo esse texto, uma das mulheres lá do início do texto me mandou uma mensagem, dizendo o quanto se orgulhava da minha força. Eu parei e sorri. Que a gente, além de perceber e valorizar as mulheres que tem por perto, valorize também a própria força. E, reforçando, que a gente se una ainda mais. Faz toda a diferença, como tentei mostrar com a minha pequena trajetória. Dá pra imaginar como ela seria sem todos esses encontros? Até dá, mas seria tão mais difícil. Que a gente se facilite. Equilibre. Eleve.

Texto: Marcie


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