All I want for Christmas

dezembro 24, 2015 3:30 pm

O dia está agitado. Talvez seja o pior dia do mundo para se ter um loja descoladinha no shopping descoladinho da cidade. As pessoas correm, se empurram, esbarram as infinitas sacolas, algumas pedem desculpa, mas o barulho é tanto que nem é possível ouvir. Crianças choram, cansadas pelo dia de compras, os pais, mais cansados ainda, praticamente imploram para que elas parem antes que eles chorem também. ‘É véspera de natal!!!’ você diria, com um sorriso aberto, enquanto corre de um lado para o outro, arrumando o apartamento pequeno e começando a cozinhar. E, embora eu sempre ache que você está fazendo coisas demais e que sua família nem vai ligar para o seu esforço, Marcela, eu adoraria estar aí, abraçando você pela cintura e reclamando do calor do forno. Já embalei milhares de presentes, sugeri e tentei encontrar ótimas sugestões que parecessem com quem iria receber.


A cada virar de costas reviro os olhos, então forjo um sorriso e volto, com mais alegria e espírito natalino. Você estaria gargalhando agora. ‘Espírito natalino, Cris, VOCÊ, HAHAHAHA, EU ADORARIA TER VISTO ISSO!’. E depois de passar o dia entregando o que as pessoas querem, querida, percebi que sou o único que não vai receber o que queria depois da meia noite. O que eu queria? Você. Aqui. Vestida de vermelho, correndo para a árvore para distribuir os presentes e contando que dessa vez quase não conseguiu se conter, queria entregar tudo de uma vez. Nesse momento, até eu que odeio todas essas celebrações, estaria sorrindo. Com você aqui como seria possível não sorrir? Você deveria ser nomeada animadora da minha vida, Marcela, com sua avalanche de beijos e histórias desajeitadas você tem me segurado nos piores momentos e me elevado nos melhores. Seu cabelo desarrumado é praticamente sinônimo das melhores coisas do mundo. E com tudo isso, estar longe de você se torna insuportavelmente mais difícil hoje. Eu estou insuportável. E, se você quer saber, você estar tão longe hoje é no mínimo uma filhadaputagem. Não sua, mas da vida e do tal velhinho de vermelho que não vai te passar pela minha chaminé. Não que eu tenha uma. Até poderia construir.
As luzes se apagaram, hora de ir pra casa. É óbvio que todos os casais do mundo estão no meu ônibus, as mãos enlaçadas, o tempo passando e os planejamentos sendo finalizados. O único lugar vago é do lado de uma senhora, toda arrumada, com muitos embrulhos. Daquelas que nós dois sempre sabemos que vai conversar por todo o caminho. Eu estou exausto. Sento. ‘Indo visitar a família?’ ‘É.’ ‘Eu também estou indo, meus netos estão preparando uma ceia linda! É a primeira vez que não acontece lá em casa’ ‘É sempre bom mudar.’ ‘Você não parece muito animado.’ ‘É.’ ‘Eu posso ajudar?’ Minha família já está preparando tudo, a música nada natalina, a ceia nada tradicional. Eu me arrumo, com a tal melhor roupa para gastar sentado no sofá. E EU SÓ QUERO SENTAR NO SEU SOFÁ, MAS QUE MERDA! Converso, bebo um pouco, entrego meus presentes e abraço um por um dos parentes. Já são quase onze. Peço desculpas e pego a mochila que já está arrumada faz uma semana, esperando nosso reencontro. Vai ter que ser antecipado dessa vez. E ao fechar o portão e correr para a estação mais próxima, me sinto como um daqueles caras das séries que você tanto gosta de assistir, talvez sem as flores e a elegância ao correr. Desculpe por isso.
Talvez esteja tudo bem por aí, você lida muito melhor com esperar do que eu, isso não é novidade. Enquanto o próximo trem não chega, fico pensando se no fundo você faria o mesmo e correria por mim. Perco um pouco meus poderes ao pensar nisso. Será que ao invés de poético isso vai ser patético? Sento no chão, embora todos os bancos estejam vazios. Aparentemente sou o único que ainda não encontrou conforto. Os ponteiros do relógio barulhento da estação se aproximam das 23:30. O trem chega. Com um entusiasmo nada típico de quem vai passar a virada de natal sozinho em um trem decadente entro. Sento. Sorrio. E mesmo que tenha se passado apenas um minuto, já estou esse minuto mais perto de te ouvir dizer ‘EU NÃO ACREDITO’ e de então te abraçar. De te ver entregar meu presente, que deve ter sido planejado há seis meses. De deitar na sua cama, com a janela aberta e conversar, colado em você até finalmente ser manhã. Não estava nos planos, eu sei. Você nem deve imaginar. Mas como até a senhorinha do ônibus já sabe, tudo que eu quero nesse natal, querida, é você.

Texto: Marcie



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