A minha nova casa é a mesma de sempre, eu que demorei pra descobrir

Montagem com fundo branco e duas fotos, dispostas lado a lado. Abaixo delas, está escrito, em bordô e com letras cursivas "reflexões de quarentena". Na primeira foto, à esquerda, uma saia vermelha com flores brancas e folhas verdes aparece em segundo plano e uma mão branca segurando uma bergamota inteira na palma. Na segunda foto, à direita, três pessoas, um homem branco (meu namorado) e duas mulheres brancas (Marcie e Fe), fazem uma selfie comendo pizza na mão.

Fique em casa. Três palavrinhas que estão presentes em todos os lugares, seja na tv ou no feed do Instagram, e viraram a vida de todo mundo do avesso, trazendo consigo novas formas de trabalho, de vida, de dor e, também, de amor. O isolamento social me segurou pela perna quando faltava o último passo para me mudar para outro país com meu namorado, que conseguiu um trabalho por lá ainda em 2019. Depois de muitos atrasos, o visto chegou e, rapidamente, nos organizamos para embarcar no final de março. Como planejado, na semana em que a quarentena começou, nosso apartamento já tinha sido entregue à imobiliária, os móveis e decorações estavam vendidos e entregues aos novos proprietários, as nossas roupas e livros distribuídos em seis malas. Ficar em casa, quando não se tem mais uma, é um tanto irônico e um muito assustador. No mundo ideal, o plano era ficar no apartamento de uma amiga pelos poucos dias que antecederiam nossa viagem. Nesse novo arranjo do destino, viramos colegas de isolamento social. 

Eu só tenho a agradecer pelo acolhimento, por alguém que amamos tanto emprestar seu espaço e abrir mão de parte da sua privacidade para nos receber. A nossa quarentena tem sido marcada pelas mesas fartas, com comida de verdade e brunch todo final de semana, por chás compartilhados e uma tacinha de vinho todas as noites, enquanto vemos mais um episódio de Killing Eve. Pelos carinhos esporádicos do gatinho dela, que já aceitou os novos roomies. Por muita cumplicidade e pela sinceridade de dizer quando algo não está bem. Nós não poderíamos ter escolhido, ainda que ao acaso, melhor. 

Montagem com fundo branco e quatro fotos quadradas, dispostas em duas duplas, duas em cima, duas embaixo. Da esquerda para a direita, foto 1 (superior): Marcie, Fe e Ícaro, todos brancos e de cabelos castanhos, posam em frente a uma parede cinza com branco. Os três estão com máscara de argila verde no rosto e com o indicador e o dedo médio para cima, em sinal de paz e amor. Foto 2 (superior): um cobertor marrom abriga um gatinho cinza que está dormindo em cima de uma mão humana branca. Foto 1 (inferior): uma cama com coberta marrom está estendida. Duas pernas cruzadas, com um vestido prateado e meias com estampa de vaca branca e preta repousam ao lado de um livro com capa cinza e detalhes vermelhos. O título "Herdeiras do mar" está desfocado. Foto 2 (inferior): uma mesa de madeira exibe um jogo de pratos e xícaras pretas, um pão de milho redondo sobre tábua de madeira, suco de laranjas em taças de espumante e um bolo de churros.
Skincare dos amigos; Nuno ganhando seu carinho noturno; Um vestido poderoso e uma das companhias mais fiéis dos últimos meses; Uma das nossas inúmeras mesas de brunch.

Ainda assim, tem dias que dói não ver a família há tanto tempo. Não encontrar os amigos antes de embarcar. Não comemorar o aniversário, nem me despedir dos meus lugares favoritos por aqui. Não ter mais o nosso apartamento, com o sol entrando pelas janelas gigantes, os azulejos antigos, o banheiro pequeno e a sala aconchegante repleta dos meus livros. Não saber quando tudo vai passar e como tantas outras pessoas (que estão em situações mil vezes mais difíceis do que a nossa) vão segurar as pontas. São muitos não e muitos quando. É sufocante. Eis que, dia desses, depois de uma sessão de terapia daquelas que fazem a gente desidratar chorando, descobri uma coisa: a minha antiga casa física pode até não existir mais e meus encontros e planos estarem pausados. Mas eu tenho outro cantinho aconchegante, bem aqui dentro do peito. O meu amor. 

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Nessa casa faltam paredes, mas o sol entra todos os dias quando o carinha que eu chamo de amor me faz café da manhã e, juntos, tentamos planejar o dia; quando ele me abraça apertado, enviando a angústia pra longe, ou dança comigo pela sala. Aqui a biblioteca, sempre tão fundamental, está repleta de lembranças, que vão aquecer por enquanto: os domingos com meus avós e minha mãe, as festas e viagens com meus amigos, os shows que fizeram a alma pulsar. É aqui que eu sento, com os pés pra cima, depois de um dia exaustivo. É daqui que eu tiro força para seguir a rotina, para escrever e respirar fundo. É aqui que eu guardo todas as novas memórias que construímos, seja a sexta-feira de maquiagem ou a massa de pizza que eu e Fefe tentamos semanalmente e nunca dá 100% certo. Um cantinho todo meu. Todo amor. Que sempre esteve aqui. Eu que demorei pra descobrir.

Montagem com quatro fotos, dispostas lado a lado em duplas, em um fundo branco com detalhes amarelos. Da esquerda para a direita, foto 1 (superior): Ícaro, um homem branco, de 27 anos, com cabelos longos castanhos e óculos marrom, está sentado em um chão de madeira com as pernas cruzadas e pés descalços. Veste uma camiseta branca e uma calça preta. A sua frente, está uma mesa de piquenique xadrez vichy vermelho e branco, com uma garrafa de vinho aberta, duas taças, uma tábua com queijos, um pote de amendoim e um prato com ovos de codorna. Foto 2 (superior): Marcie, mulher branca de cabelos castanhos presos, posa em frente a uma parede metade branca, metade cinza. Ela veste um blazer preto com ombreiras repletas de babados rosa, meia calça preta e coturno preto. Foto 1 (inferior): Duas mulheres brancas com cabelos castanhos, Marcie e sua amiga Fernanda, estão sorrindo, segurando pães de fermentação natural na mão. Foto 2 (inferior): Marcie posa em frente a um armário de madeira com os cabelos presos, uma vassoura vermelha na mão, fones brancos nos ouvidos e máscara rosa no rosto.
Cinco anos de namoro comemorado no chão do quarto; Meu aniversário e o único dia em que me maquiei de verdade; As amigas mais fãs de pães de fermentação natural que existem; momentinho pra cuidar da casa (e de mim)

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